"Se as idéias podem ser comuns e partilhadas,o mesmo não acontece com a forma que exprime a singularidade irredutível do estilo e do sentimento.A legitimação da propriedde literária é,assim,apoiada sobre uma nova percepção estética,que designa a obra como criação original,identificável pela especificidade de sua expressão.
(...)Em meio a essa controvérsia que mobiliza escritores (Zacarias Becker,Kant,Herder),emerge uma nova definição de obra,caracterizada não pelas idéias que ela veicula (que não podem ser objeto de nenhuma apropriação individual), mas por sua forma - quer dizer,pela maneira particular como o autor produz,reúne,exprime os conceitos que ele apresenta.Transcendendo a materialidade circunstancial do livro - o que permite distingui-lo de uma invenção mecânica -,como de um processo orgânico comparável às criações da natureza,investido de originalidade por uma estética, o texto adquire uma identidade imediatamente atribuída à subjetividade de seu autor e não mais à presença divina, ou à tradição ou ao gênero."

Do livro: A ordem dos livros
Autor: Roger Chartier