Sobre Arquivos
ou Como Pretender Construir uma Máquina do Tempo
José Cláudio Teixeira Júnior
"(...) só uma coisa não há: o esquecimento."
Jorge Luis Borges
1º. O esquecimento é letal . Sobre o esquecimento não realiza-se mais que uma tentativa de pensamento, sobre, acima dele. Muito provavelmente, para melhor observar devemos vê-lo a partir de sua tenuidade, do complexo modo de conexão estabelecido com suas 'divergências', antíteses, diferenças onde sempre se subentende um encontro, uma relação complementar para examinar, observar minuciosamente.
Anteposto ao esquecimento, pensamos na lembrança e seu antônimo como eixos constituintes que se combinam para uma tentativa de conter o passado em um instante preciso, em uma noção de tempo sem seqüência, um aqui-e-agora em contato com um além e aquém que não gera tempo algum, não tem fim.
A memória então estaria no domínio de uma possibilidade de multiplicar aquilo que o esquecimento particulariza, torna inacessível, incitando paradoxos vitais: Se estamos certos de que não possuímos o esquecido porque o percebemos, e que se não há o fim absoluto e também não há uma origem que assim se assemelhe, existirá apenas uma ascendência cada vez mais distante, uma genealogia que permita a procedência, somente uma linha de existência?
Vale advertir que a lembrança parece demandar um distanciamento considerável de sua origem, do tempo e lugar a que se refere. Sem o esquecimento não há entendimento, não há juízo, não há conhecimento possível - como ensina Borges através de seu personagem Funes, o possuidor da capacidade de recordar detalhes de cada folha de cada árvore que tinha visto em toda sua vida; e toda e qualquer nuance provocada por um distanciamento, por uma oscilação causada pelo vento, pela luminosidade cambiante do dia, ou mesmo por uma interferência de sua imaginação que acarretaria assim uma nova percepção e, dessa forma, uma nova 'memória' seria constituída. Funes também podia lembrar-se de todas as letras de cada livro que havia lido mas, por isso mesmo, não podia refletir, ponderar, abstrair, já que estava desprovido de suas capacidades cognoscitivas, impossibilitado de generalizar .
2º. O início tem a necessidade de ser aceito e aceitar-se. O início de tudo é, sobretudo, simplesmente cêntrico. Assim o Arkhé, que é o começo, o princípio, é a voz pré-verbal de um comando primitivo, gerador por excelência. Segundo a visão aristotélica, o 'arqué' descreve a origem de um processo, o onde e quando tudo principia. Os arquivos surgem na vida humana exatamente com o aparecimento da própria manifestação da escrita e respondem a esse mesmo desejo de permanência, de retorno, que é um princípio em si, infiel ao seu início, mas fiel ao desconhecido que o compõem .
Porque todas as coisas mudam não significa que não persistam, que não tenham um início, um meio e um fim mesmo que indefinidos, vagos, imensos, co-relacionados. Ou a gênese é a vida mesma, todavia sem vida, em forma de herança, incógnita, já que o princípio de tudo parece estar no próprio infinito? O próprio vazio que permite o preenchimento de espaços de vida, e a vida mesma, não é apenas reconhecida dentro dos limites do espaço-tempo? Por exemplo, quando olhamos o Sol, o sOl que vemos é persistentemente o soL de oito minutos atrás; não é ele exatamente - já que sua luz viaja a 300 mil km/s até nosso reconhecimento cerebral, nossa capacidade de interpretação. Assim, a informação registrada é uma expansão da memória, da imaginação ou do fato vivido; é tanto factual quanto fictícia no sentido de que nunca será a mesma de sua origem. É alvo da interpretação, da retro-experiência, de um reviver no outro. Mesmo sendo ela o que sempre será: uma experiência de vida.
Segundo Hans-Georg Gadamer jamais podemos extenuar a capacidade de interpretação, de significação de um texto [extensivamente, de uma informação] com nossos arbitrários hábitos mentais. O fato de encararmos qualquer escrito, qualquer informação registrada com o devido preconceito e expectativa que nos caracteriza como humanos-leitores, não é essencialmente um prejuízo, mas o sinal de um processo, da possibilidade de uma abertura ao que está escrito, de assumirmos nossos pré-conceitos e exercitarmos nossa crítica -logo, com a leitura e as possíveis releituras vamos estabelecendo sempre novas relações cognoscitivas com o texto que reinventa, altera nossas pré-impressões.
Assim entendemos que o arquivo não é o fim nem a recordação; não é a simples exposição ao princípio da realidade de sua procedência, nem o princípio da lembrança, e sim, o começo desvelado da relação inter-humana/extra-humanas, da relação dos sujeitos com outros sujeitos, com objetos, físicos ou imateriais em suas marcas sucessivas: as digitais expressas no sempre contíguo e ubíquo mundo exterior.
Qual uma complexa relação de pegadas como um quebra-cabeças: a memória é a Arca da passagem e produto-atividade humanas. O arco flexionado numa estrutura orgânica relacionável entre o trinômio tempo-espaço-homem, que produz não apenas a possibilidade de sua própria historicidade, mas outras fontes e formas de inscrição permanentes e reveladoras do ser e estar, de verbos que de algum modo -e em algum lugar- estão multiplamente implicados de um momento anterior a um outro presente instante e estado futuro.
Arquiva-se o exposto como passado, interpretado em um momento minucioso que se julga presente. Ou seja, o arquivado não se refere apenas ao produtor e sua informação registrada sobre um suporte qualquer, nem se restringe aos sentidos do arquivista, seu crivo, sua interpretação. Pode ir além. Conserva-se também um palimpsesto do imaginário, da dimensão social à psique do indivíduo, do coletivo ao individual e às avessas: seja o arquivável, o arquivado ou o próprio arquivo, o olhar do arquivista não sinaliza dominantemente o prazer dedicado ao usuário de re-experimentar, identificar, avaliar, alinhavar ele mesmo o que deve de ser perseverado em sua memória ou servir à extinção, ao esquecimento. Arquivar não deve ser embalsamar, obscurecer. Não deve conhecer essa acepção de morte e sim de revida (ou ainda, revidar, replicar, responder). Não fosse assim, o arquivista seria uma figura muito mais próxima do simples "serviçal social que arqueologiza, acata sentidos, reconhece um fruto, recolhe, prepara e serve um pequeno banquete com instruções ou sugestões de uso" . Mas não devem os arquivistas pensar o conteúdo de seus arquivos?
3º. Talvez não haja tanta diferença na necessidade de lidar com algo histórico ou ahistórico, recordado, esquecido, separadamente. É da ordem da impossibilidade da juntada de razão e reflexão como unidade documental que se produz a unicidade em re-significância; jamais em recuperação de um princípio. Estamos invariavelmente sob a lei do eterno-retorno, do "finício", de um "riverrun", da iminência de uma máquina do tempo capaz de chegar ao mais imprevisto passado - que acaso não poderia sob algum aspecto ser confundido com qualquer futuro?
A ação do arquivar parece exatamente relacionada com um ato de crença da possibilidade daquilo que se deseja, da realidade desejada além da plausível, ao imaginário posterior. Arquivar não deve ser encerrar, submeter à vontade do poder e privilégio de domínio. Ao contrário, arquiva-se para liberarquivar, perpetuarquivar. O arquivado permanentemente pertence, enfim, ao sujeito que virá e a todos os sujeitos. Com ou sem o consentimento de "nosso" modo de sentir o tempo.
Na Grécia, por exemplo, sentia-se três possibilidades de tempo: chamava-se Cronos o tempo cronológico, quantificável em uma seqüência linear; Kairós significava a qualidade da vivência durante e dentro do tempo, em contraposição ao Cronos. E o terceiro, Aion, representava o sempre, o tempo que chega e chegará nunca porque se infinita, permanece intocável de forma contínua e eterna.
Depreende-se outros tempos em decorrência de si mesmos: o tempo interceptado do pensamento, da lembrança histórica das datas-estelares, do apego à experiência humana, da saudade, do amor ao tempo de cada instante. O tempo social, político, sagrado, consciente, genético, imagético, plástico, cinematográfico, interior, orgástico, etc. Todos os tempos convivem no espaço criado pelo arquivo.
4º.É comum assegurar que nossas sensações e emoções relacionadas com o mundo exterior, os pensamentos reflexivos e nossa memória imediata existem no espaço que denominamos consciente. É nossa superfície, nosso 'corpo' que por sua vez relaciona-se com uma dimensão que lhe opõem, sustenta e convive intimamente, gerando assim mesmo um complexo de memória de particularidades emotivas e sensitivas, matizadas, num elaborado sem limites com o 'corpo', ou seja, a 'mente', representada pelo sub-consciente. Enfim, temos ainda o campo do inconsciente, a esfera do onipresente sistema profundo da memória total, das informações gerais e primitivas que eventualmente são evocadas aos níveis mais superficiais. O inconsciente seria o grande arquivo, da arqui-célula à deterioração da última célula e à transformação da sua energia derradeira; e ao mesmo tempo, já primitiva.
A questão do arquivar talvez passe por esta modalidade de desejo de permanência, inata, da revivência simbiótica de uma experiência passada, presente e ao mesmo tempo intimamente futura: a re-experiência do arquivar é a plástica utópica da busca do tempo perdido, do tempo não apreendido em seu momento de vivência plena, como sugere Derrida em seu "Mal de Arquivo". É organizar a qualidade mágica e histórica do in-formatio que permanece latente, exteriorizada no tempo-espaço à espera do maravilhamento do outro olhar, do olhar arquivista que o reorganiza, interpreta, revive, fazendo pulsar novas ondas informativas que podem se relacionar formando um novo lócus temporal, onde o arquivo revive, e a atividade renasce.
Arquivar é uma ação por novas temporalidades, por uma desaceleração que promova a reflexão sobre os objetos incrustando-os no espaço por uma espécie de resgate (?) da dignidade humana. Processo da velocidade de exclusão gerado. Miguel de Unamuno fala que a fonte essencial do tempo está no futuro. Uma informação recebida em um instante é portanto jamais idêntica à informação que se recebeu num micro-instante anterior ou posterior. O recebimento é instantâneo, por vezes se dá de modo inconsciente, osmótico. Decodificada em níveis que vão da superfície à profundidade, ela é identificada, avaliada, descrita, relacionada e armazenada na memória - com uma espécie de notação externa que possibilite a relação com alguma ferramenta mnemotécnica que a faça ressurgir, mas como outra informação, já que ela é acumulada progressivamente e a cada nova informação armazenada novas relações surgem com as anteriores, edificando assim uma espécie de conteúdo, um rol informacional que se apresenta interdependente e inter-relacionado.
5º. Se não há memória, tudo se repete como em um princípio que se infinita, elastece a história que seria então circular, e não avançaria a seu princípio-fim, o rei dos inícios. Arquiva-se o momento transmutado em objeto, o documento primordial e seus derivados. O arquivo não logra a submissão da velocidade informacional que permanece ruidosa, espessa, atordoando uns, desprezando outros, inatingível para todos. Continuar a ser uma frenética busca em classificar e ordenar e preencher com uma espécie de pulsão, ainda que ausente, aquelas marcas, pegadas e digitações, sejam mnemográficas ou virtuais, clássicas ou em topologias psíquicas, diversas: o lugar do arquivo existe por si só; assim que existe o porquê do arquivável existir permanentemente.
Assim como individualmente seus componentes básicos permanecem contínuos, os dados têm vida orgânica, as inscrições vagam sobre o topos: o arquivista projeta os lugares de permanência para o ambiente em branco dos momentos perdidos. O arquivo apodera-se da lei e só da lei sabe aquele que interpreta o arquivo e cede sobre ele. Nenhum indivíduo está a salvo sem saber do arquivo. Nenhuma democracia subsiste sem pretender que o corpus social se apodere de poder, de lei, de arquivo, como salienta-se comumente. São os direitos fundamentais do homem-cidadão que se elaboram de forma mágica ocasionando um saudável equilíbrio-ação de acesso e interpretação, recusa, descarte, reimpressão: novo-arquivo. O tratamento arquivístico apenas termina quando é necessário reiniciar. Os arquivos da humanidade são intermináveis; produção e descriação incessantes; sejam arquivos exteriores ou imaginários, os arquivistas não separam seus fenômenos de vida útil, momentos de historicidade proeminente; ao contrário, o arquivista espera o momento de confronto, aquele que virá, o momento de encontro com qualquer e todo outro e não produz apenas memória, mas a sedução de um desejo de permanência, de revívio, nova leitura.
O arquivo demarca no espaço e no tempo um lugar exato, uma vida exata, mesmo que em um instante impreciso. É parte e todo, simples complexo de princípios e fins que se engendram. Não é a simples guarnição de registros nem das identidades absolutas. É uma satisfação, um anseio; uma transmissão viral de necessidade de esperança, de comunicar, transmitir, transformar. Um instrumento ao conhecimento, à reflexão e à evolução. Pense: se Penso, logo arquivo.
Texto publicado em:
http://www.revista.criterio.nom.br