Literatura e distâncias
Escrito por Maurem Kayna

Há quem diga (ou repita) que palavras têm poder. "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele" (João 1:1-3).

Tanto para os que vêem na Bíblia não mais que texto histórico e boa fonte para dissecar aspectos sociológicos e antropológicos da época, como para aqueles que crêem numa mensagem divina traduzida em textos, parece consenso que as palavras são instrumentos fortes na formatação do mundo como o conhecemos — e não há de ser coincidência que o conhecimento, ao menos no nível do que nos habituamos chamar Razão, não pode prescindir da linguagem. Não que as coisas não existam se não podemos descrevê-las, mas existe um existir apartado de nós, que nos ignora, nos deixa na desconfortável (mas real) posição de seres descartáveis dentro do sistema (condição na qual eu creio sem qualquer mágoa). E através dela, a palavra, o mágico verbo, também se inventam mundos, circunstâncias, viagens, rotinas.

Nem entremos no cerne da importância da palavra como rota de pensamento, fiquemos com a possibilidade que os vocábulos possuem de nos transportar a lugares que nós leitores não conhecemos, tudo através da descrição de cenários e sensações. E mais, o próprio autor pode jamais ter estado presente no local descrito para nos fazer um relato verossímil e envolvente. Chico Buarque, quando escreveu Budapeste, não havia pisado seu solo. Claro está que as críticas feitas à obra pouco tem a ver com esse particular. A revista da cultura*, na sua edição de número 5, traz um ensaio da Dra. Noemi Jaffe que provocou-me a pensar sobre essa função forjadora da escrita. O título da matéria é "Viagem sem sair de casa" e contém algumas provocações interessantes e o trecho que mais me tocou deriva de uma citação de Elisabeth Bishop e diz que os livros são como mapas, que vão mostrando os lugares que estão fora e ao mesmo tempo dentro de nós. Tal afirmativa pareceu-me uma imagem forte o bastante para justificar o fascínio da leitura, já que olhar o mundo é aventura interessante o bastante mesmo para aqueles que ainda não adentraram o reino das palavras — isso nos demonstram as crianças curiosas, que muitas vezes persistem em adultos inquietos.

Mas voltemos ao verbo e todas as outras formas gramaticais. Não apenas no princípio, mas ainda hoje, a palavra — seja escrita, cantada ou gritada — funciona como estrada na vida de todo mundo. Por meio dela se pensa, pede, cobra, reclama, inventa e desenvolve inventos úteis ou nem tanto. E a literatura, que é a palavra esculpida com cuidado, no intuito de traçar telas iluminadas ou expulsar as sombras da alma, ou ainda, e aparentemente de modo mais simples, recriar o cotidiano de outros simples mortais como nós, é muito mais que uma arte que faz do verbo argila moldável. Literatura interfere nos mapas que somos com tanta intensidade como podemos ser matéria prima para sua produção. Então, tiremos proveito do que nos conta Xavier de Maistre: "Eu empreendi e executei uma viagem de quarenta e dois dias à roda do meu quarto. O prazer que sente ao viajar em seu quarto está ao abrigo do ciúme inquieto dos homens; é independente da fortuna." É provável que muito poucos disponham hoje em dia de calma e tempo suficientes para tal intento, mas doses homeopáticas de viagens assim podem ser desfrutadas em qualquer assento de ônibus, fila de banco ou outro desvão do dia em que nos caia um belo livro às mãos.

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