Preconceito sobre a origem das palavras nutre ignorância sobre peculiaridades da pronúncia, gramática e vocabulário da língua | ||
Mário Eduardo Viaro
Muitos ficam frustrados quando consultam um dicionário etimológico e não encontram uma resposta para seu questionamento. Os maus etimólogos, preocupados com a frustração de seus leitores, fazem suposições completamente estapafúrdias para alegrá-los ou por alguma razão ainda mais obscura. Por isso, toda consulta etimológica deve ser feita com cautela. Não é a mesma coisa servir-se de um José Pedro Machado ou de um Silveira Bueno. O primeiro autor, de fato, nos conduz a boas respostas, já o segundo é extremamente controverso. No primeiro time está também Antônio Geraldo da Cunha, sem dúvida, o melhor etimólogo da língua portuguesa. Com mais cautela deve-se consultar o raro dicionário de Antenor Nascentes, que, a despeito do primor que demonstra em seu segundo volume (de nomes próprios), deixa soluções bastante questionáveis no primeiro (de nomes comuns). Aparência ilógica Intrigado com esse decreto de Cândido de Figueiredo, um linguista mineiro, Lindolfo Gomes (1875-1953), publica em O Estado de São Paulo, de 4 de agosto de 1913 (transcrito na Revista Lusitana, no mesmo ano), um estudo detalhado sobre a origem dessa construção sintática. Argumentou solidamente - derrubando o achismo de Figueiredo por meio de provas documentais - que a construção remonta ao século XVII e pode entrever-se já em Rui de Pina, Garcia de Resende e Tomé da Veiga. A explicação para sua irregularidade provém, como sempre, de uma regularidade mais antiga. Assim, em vez de dizer "fez com que ele partisse", os autores mais antigos diziam "fez com ele que partisse". A preposição atraiu o pronome relativo, jogando o sintagma nominal para a frente, gerando assim um falso sujeito, única possibilidade de interpretação. Gomes conclui que "com que" não é uma locução conjuntiva, mas "vestígio preposicional de um adjunto adverbial latente". Parece-nos muito razoável tal explicação, cujo sucesso é devido aos dados. Mais que isso, dá dignidade a uma forma que até então sofria preconceito injusto, por parecer ilógica. Na verdade, a "lógica" que se deve procurar nunca é contemporânea, mas se encontra em sincronias pretéritas. O fato de ninguém as conhecer alavanca posturas que se voltam contra estruturas irrepreensíveis. Fenômeno brasileiro Em latim, o verbo ire com ad significava "ir para as proximidades de", já ire com in mais o caso acusativo significava "ir para dentro de". Ninguém implica com formas equivalentes como "chegar em". Não há nada de africanismo nesse uso da preposição. Os defensores dessa hipótese veem na expressão coloquial ni mim um elemento supostamente igual ao de algumas línguas africanas. Além do fato de o ni aparecer em outras línguas não-africanas como partícula de localização (por exemplo, no japonês), o problema mais sério é que nessas línguas, ni é uma posposição e não uma preposição. Uma mudança estrutural seria muito forçada, quase absurda, para justificar o empréstimo, além do fato de que as preposições não são facilmente emprestadas no contato linguístico, como o são os substantivos ou verbos. A forma ni equivale a "de" (pronunciado [di]), criada por analogia: "do", "da", "de", no, na, ni. Mais coerente seria grafá-la como ne, quando, por exemplo, não nos valendo do alfabeto fonético internacional, queremos reproduzir a "fala real" (como na fala do Chico Bento, de Maurício de Sousa), mas a tradição é que manda em assuntos de escrita, como dizia Fernão de Oliveira, primeiro gramático da língua portuguesa. Caipiras Costumo dizer aos alunos que, se conhecem alguma expressão somente usada entre seus familiares, que a empreguem sem vergonha em outros contextos. Assim, passando-a para a frente (em vez de a reprimir), não serão responsáveis pela sua extinção. Além do seu direito à vida, cada extinção de expressões pouco prestigiadas é uma tragédia para a linguística histórica e para a etimologia. É um elo que se perde para sempre, da mesma forma que a extinção de uma espécie biológica causa uma lacuna irrecuperável na compreensão da filogenia e da evolução dos seres vivos. Não salvemos só micos-leões, mas também as expressividades que o Brasil arcaicamente conservou durante séculos. Devemos lembrar que até mesmo formas que não correm tanto risco, como "eu vi ele", consideradas horríveis por puristas, aparecem em textos do século XV e são perfeitamente explicáveis pela linguística. Consultando os Opúsculos, do português José Leite de Vasconcelos (1858-1941), uma gama enorme de palavras e pronúncias familiares desfila página após página diante de nós. O nosso "ta" em vez de "está" ocorre também em Portugal, assim como a preposição "pra" em vez de "para". Não houve, nesses dois casos, atuação da pronúncia indígena ou africana (aliás, pouca coisa, na área da gramática possui tais origens, já o mesmo não se pode falar do léxico ou da toponímia). Muitas pronúncias que pensaríamos ser típicas dos caipiras e matutos ainda eram correntes em Portugal no começo do século XX: "arve", "fruita", "úrtimo", "marfeito", "prantar", "invaporar", "num quero", "coiso", "gumitar", "home" (e o diminutivo "hominho"), "memo", "mermo", "muléstia", "mericano", "ruim", "muntar", "cama", "inselência", "Cremente", "grandissíssimo", "maginar", "onte", "tamém", "adequerido", "beim nharto" (bem alto), "qué" (quer), "quarquer", "cheguemos", "nós semos", "agoneia", "vinhemos", "inté", "vosmecê", "barboleta", "bença" (bênção), "crendeuspadre", "munto" (muito), "pagou a pena" (valeu a pena), "agardecido", "parteleira", "pinguela", "batucar", "eu le dei", "macetar" (esmagar), "pipino", "piqueno", "piqueninho", "púbrico", "praino" (plano), "queto" (quieto), "dia de São Nunca", "sastifeito", "abobra", "marelo", "drumir". A semelhança entre essas formas portuguesas e as caipiras são surpreendentes e, nesse sentido, há projetos que buscam estudar cientificamente esses fatos, como o Projeto Caipira (USP) e o Iboruna/Alip (Unesp de São José de Rio Preto). Estigma Da mesma forma, a pronúncia de "lua" com u nasal (como em "muito") é agora rara nos dois lados do Atlântico. Longe de ser fruto de ignorância ou uma excentricidade, essa nasalidade do u nessa palavra é o que sobrou da antiga consoante nasal n da palavra antiga luna, a qual está presente em palavras cultas como "sublunar" ou em outras línguas românicas, como o espanhol luna ou o francês lune. Também na pronúncia "chuiva" nenhum i foi acrescentado, pois é uma conservação do latim pluvia (com metátese): também se vê no espanhol lluvia. Ao contrário, foi a variante utilizada pela forma culta que perdeu esse som. Pinchar Estigmatizar, infelizmente, voltou à moda com o fenômeno da suposta ascensão social ou do maior leque de consumidores. Ninguém quer se identificar com uma classe iletrada e ignorante, que já perdeu todos os seus valores na revolução industrial brasileira. Mas, para além de ser lamentável, esse comportamento é um desserviço à história da nossa língua e nos mantém para sempre ignorantes do que houve no passado e das razões da peculiaridade de nossa pronúncia, gramática e vocabulário. Instaurado esse vácuo, só sobra espaço para o mito e para os charlatães que, com suas maravilhosas e inconsistentes histórias, se cercam de uma falsa aura de sabedoria. Mário Eduardo Viaro é professor de língua portuguesa pela USP, autor de Por trás das Palavras (Globo, 2004) |
O estigma do caipirês