A Capital Basileira da Arte Contemporânea
Em Brumadinho, Minas Gerais, um museu privado reúne obras de alguns dos principais artistas da atualidade, como Doris Salcedo, Matthew Barney, Cildo Meireles e Pipilotti Rist. Em sua especialidade, o acervo supera os das instituições públicas brasileiras
A o redor do empresário mineiro Bernardo Paz há sempre uma série de histórias sensacionais. Na Arco 2008, feira de arte da Espanha, Paz ganhou o prêmio de melhor colecionador internacional. Seu acervo é um caso único no Brasil. Com ele, Paz criou um museu de arte contemporânea que está um furo acima das coleções do gênero disponíveis nos museus públicos: o Inhotim Centro de Arte Contemporânea (Caci), em Minas Gerais, a janela pela qual público, críticos, interessados e curiosos podem encontrar artistas brasileiros e internacionais no auge de seu momento criativo.
Mais de cinco anos depois de aberto, Inhotim continua demonstrando fôlego e arrojo. No espaço de Bernardo Paz, não se trata exatamente de obras, mas de pavilhões que se espalham por 2.100 hectares de mata atlântica, em meio aos jardins originalmente desenhados por Roberto Burle Marx e quatro lagos artificiais.
Inhotim é um caso muito particular na acidentada história das instituições públicas e privadas em relação com a arte contemporânea, aquela que não ganhou ainda a aura do tempo. Um quadro de Renoir possui um século de certezas sobre seu valor. E quanto aos vídeos do norte-americano Matthew Barney realizados nos anos 2000, como julgá-los, já que hoje eles podem ser tudo, mas décadas depois, nada? De início, dando a ele uma chance de entrar na história da arte. No Caci há Barney, como há Tunga e Cildo Meireles, ou Doug Aitken e Pipilotti Rist, constantes nas publicações ou debates críticos sobre a arte contemporânea o espaço é voltado para a arte feita a partir de 1960, com acervo amplo (grande parte dele ainda não apresentada em público), com obras de autores históricos, pioneiros de certas pesquisas que são, hoje, o cotidiano das artes. E a isso se soma mais um fator: a instituição apresenta mostras que criam contexto, rico de sugestões, o que é essencial para que se vá além da aparente excentricidade do exibido e se observem melhor o significado e o sentido dos trabalhos. Assim, não existe melhor lugar no Brasil para entrar em contato com a produção "de ponta" na arte.
Gênese
Bernardo Paz tem 59 anos e trabalha com mineração e siderurgia. O projeto de expor sua coleção privada surgiu com a compra de uma fazenda, em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte. Nos anos 90, quando o empresário conheceu o artista Tunga, a coleção tomou o perfil atual. E o acervo inicial, voltado para o moderno, deu lugar à arte contemporânea. O convívio com artistas (ele é casado com Adriana Varejão) o levou à decisão de criar o Caci e abrir o local para o público em outubro de 2006 — inicialmente, apenas convidados tinham acesso. Em um ano, recebeu 110 mil visitantes.
A coleção está sob responsabilidade de três curadores: o alemão Jochem Voltz, o brasileiro Rodrigo Moura e o norte-americano Allan Schwartzman. O projeto é a criação de um acervo de importância internacional, priorizando artistas-chave para a arte contemporânea. O acervo tem sido formado a partir da aquisição de obras de alguns artistas (dos quais vão sendo criados núcleos) e da produção de novas obras, comissionadas ou pensadas especialmente para o local. Todos os autores são apontados como alguns dos mais importantes nomes da arte atual.
Voltz, que é também diretor artístico de Inhotim, explica que as mostras reafirmam o perfil e as diretrizes da instituição: intensas relações entre arte e natureza, equilíbrio entre artistas brasileiros e internacionais, estabelecidos e emergentes, multiplicidade de linguagens e criação de diálogos entre as obras. Os pavilhões exemplificam a fala de Voltz. Adriana Varejão faz pintura que confronta, brutalmente, sensualismo, morbidez e história. Doris Salcedo é autora de instalações e objetos que fustigam a violência e a exclusão de direitos por motivos políticos, étnicos ou econômicos. Já colocou calçados de desaparecidos políticos, recobertos com pele de animais, presos a paredes de galerias. E criou uma fenda, no solo de museu, para falar da segregação de imigrantes. Essas são apenas as novidades.
A lógica da exibição dos trabalhos responde a um claro mandamento: os pavilhões são construídos em função deles, e a preservação ambiental é uma regra indiscutível. Sobre as mostras, elas convidam ao aprofundamento de experiências estéticas. Não colocam a política na frente do estético, mas deslizam, suavemente, para valores mais permanentes e específicos da arte.
Para os artistas brasileiros, Inhotim foi uma revolução: criou um lugar para trabalhos de grandes dimensões, alguns deles entre as mais ousadas criações de autores que tradicionalmente terminavam encaixotados em ateliês, quando não simplesmente desapareciam devido à ação do tempo. Bernardo Paz pretende tirar do colecionador e da arte contemporânea uma imagem que se cola a ela quase como uma maldição: o elitismo. Em sua visão, o Caci é sobretudo um projeto educativo, no qual o prazer do piquinique familiar junto ao verde não exclui a curiosidade ou o contentamento criado ao conhecer, por exemplo, a Cosmococa 5-Hendrix War (1973), de Oiticica e Neville D'Almeida, ao som de Jimi Hendrix.
Inhotim Centro de Arte Contemporânea, Brumadinho (MG), acesso pelo km 640 da BR-381. Aberto ao público às quintas e sextas-feiras, das 9h30 às 16h30, e, aos sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30.
Fonte : revista BRAVO!