Arte poética
Na minha infância,antes de saber ler,ouvi recitar e aprendi de cor um poema tradicional português ,Nau Catarineta.Tive a sorte de começar pela tradição oral,a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas,mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas,o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que,se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim,eu conseguirira ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo,toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente.E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me ,muito tempo mais tarde,que não há poesia sem silêncio,sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro - aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas - coloquei -me no centro do teatro e disse em voz alta o principio de um poema.E ouvi , no instante seguinte,lá no alto,minha voz,livre, desligada de mim.
Tempo depois,escrevi estes três versos:
A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.
Sophia MelloBreyner