Coleção de luxo reúne peças de resistência da obra de Beckett


Um lance editorial que consagra o teatro de Samuel Beckett em língua portuguesa.
A publicação pela Cosac Naify de "Dias Felizes" (1961), ao lado da republicação de "Fim de Partida" (1957) e de "Esperando Godot" (1952) coroa o esforço de Fábio de Souza Andrade na tradução e atualização da obra do autor irlandês no Brasil.

A luxuosa coleção, que chega às livrarias dando um tratamento gráfico homogêneo aos três livros, reedita as traduções de "Fim de Partida" e de "Esperando Godot", publicadas pela mesma editora, respectivamente em 2002 e 2005, e acrescenta a elas a terceira joia da coroa inaugural do teatro beckettiano, "Dias Felizes".

A peça é o embrião da passagem de Samuel Beckett da condição de dramaturgo para a de encenador de seus próprios textos.

Se ele ainda escreve para outros encenarem, já aparece nítida no uso acentuado das rubricas a perspectiva de construir a cena apenas com pequenos e precisos gestos dos atuantes.

PARALISIA FÍSICA

A protagonista, Winnie, aparece no primeiro ato enterrada em um montículo de grama até a cintura.

Seus únicos movimentos são o do tronco e o dos braços, que manipulam objetos pessoais em uma bolsa de compras e se ocupam em ajeitar um ridículo chapéu entre os cabelos.

Vez ou outra ela torce a cabeça para olhar o companheiro Willie que, invisível ao público, rasteja por detrás do monte.

No segundo ato a personagem aparece enterrada até o pescoço e, como no primeiro, suas falas são sempre intermitentes, demarcadas por interrupções constantes que as indicações de pausa, apostas pelo autor, estabelecem.

Não há ação ou discurso possível a serem desenvolvidos. Além da paralisia física, a personagem aparece esvaziada de consistência ficcional. Como diz Beckett, citado por Martha Fehsenfeld, "é uma criatura interrompida".

O depoimento da atriz e crítica que acompanhou como assistente a montagem inglesa de 1979, dirigida pelo próprio autor, e encarnou a personagem de Winnie alguns anos depois, é uma das preciosidades que integram o livro.


PEÇAS DE RESISTÊNCIA

A outra é a correspondência entre Beckett e o diretor norte-americano Allan Schneider, nos dois meses que antecedem a estreia mundial da peça, nos Estados Unidos.

Na sua última carta Beckett, no auge da ansiedade com a estreia, confessa ao amigo: "A reação do pessoal do ramo vai me ajudar a decidir se é mesmo um texto dramático ou uma aberração total, e se faz sentido tentar levar adiante esse tipo de teatro". Fazia, e a partir daí ele não só radicalizou sua escritura como passou a dirigir suas peças.

Depois de ter se focado na trilogia de romances de Beckett --"Molloy", "Malone Morre" e "O Inominável"-- e produzido um primeiro e definitivo estudo sobre ela, "O Silêncio Possível" (ed. Ateliê, 2001), o crítico Fábio de Souza Andrade completa com "Dias Felizes" a cuidadosa edição do que chama de "peças de resistência" da dramaturgia de autor irlandês.

O editor oferece introduções criteriosas das três peças, esmiuçando de perspectivas originais suas estruturas dramáticas e permitindo ao leitor, no cruzamento dessas miradas, situar-se não só frente àquela dramaturgia como às novelas anteriores e outros textos posteriores.

Cada um dos volumes traz as fotos de algumas montagens históricas --inclusive daquelas dirigidas por Beckett, como as de "Fim de Partida", em 1967, e de "Esperando Godot", em 1975, ambas no Schiller Theater de Berlim, e a de "Dias Felizes", em 1979, no Royal Court Theatre, em Londres-- e uma sessão com "sugestões de leitura", abarcando a bibliografia de e sobre Beckett em diversas línguas e, principalmente, no país.

É, de fato, um trabalho exemplar no resgate do autor de três clássicos do teatro do século 20 .

Fonte: Folha de São Paulo