Biblioteca Nacional completa 200 anos com raridades longe dos olhos do público

Reportagem do iG teve acesso a algumas dessas obras protegidas sob forte esquema de segurança. Exposição marca data comemorativa


Quando D. João VI fugiu das tropas napoleônicas trouxe para o Brasil o rico acervo de livros pertencentes à Corte Real. Em 1810, foi fundada a Biblioteca Nacional (então Real Biblioteca), que atualmente tem sede em um imponente palácio na praça da Cinelândia, centro do Rio de Janeiro. Duzentos anos depois, comemorados nesta sexta-feira (29), parte destes exemplares, somados a muitos outros que foram sendo doados ao longo dos séculos, conferem à instituição o título de a mais importante biblioteca da América Latina, que a ela se somam hoje nove milhões de obras.

O prédio atual da FBN teve sua pedra fundamental lançada em 15 de agosto de 1905 e foi inaugurado cinco anos depois, em 29 de outubro de 1910

A reportagem do iG teve acesso a raridades da Biblioteca Nacional, sendo algumas delas guardadas em cofres e vigiadas dia e noite por forte esquema de segurança – que conta com vigilância humana e por meio de câmeras. Como é o caso de um raríssimo exemplar da Bíblia Moguncia, datada de 1462, de origem alemã, escrita em latim e impressa em letras góticas em pergaminho. Esta é considerada a
Foto: George Magaraia

segunda mais antiga edição da bíblia no mundo e foi trazida pela família imperial ao Brasil. Notam-se detalhes do animal que deu origem ao pergaminho – como marcas de pêlos e buracos referentes ao mamilo.

É preciso todo cuidado ao se manusear uma obra como esta. Após uma série de autorizações de diretores, o cofre climatizado é aberto por um segurança e uma técnica da sessão de “obras raras”, cuidadosamente, a retira com luvas brancas. Somente ela pode manusear as páginas do livro. As fotos devem ser feitas com certa rapidez, para que a peça volte logo em seguida à proteção do cofre. O “impresso mais precioso da América Latina” está na sessão “mais raro entre os raros” do acervo.

Outra preciosidade da Biblioteca Nacional, que também está longe dos olhos do público, é o documento original assinado por D. João VI autorizando a abertura dos portos às nações amigas, fato que trouxe prosperidade comercial à nova sede do império português. A carta de 28 de janeiro de 1808, escrita ainda na Bahia, traz uma curiosidade: D. João assina como “príncipe” e faz cinco pontos, referentes à constelação do cruzeiro do sul. Este documento concorre ao título de “memória do mundo”, conferido pela Unesco.

No “setor de manuscritos”, cercado de todo tipo de cuidado, está o “livro das horas”, do século 14, que pertenceu – por último - à Dona Thereza Cristina, mulher de D. Pedro II. Feito a mão, escrito em latim e com iluminuras em ouro, o livro é uma relíquia que venceu o tempo e está intacto até hoje. Ali também está a coleção de 1180 estampas sobre a fauna e a flora feitas por Alexandre Rodrigues Ferreira, durante uma expedição no norte do Brasil em 1763.

Logo na entrada principal, diante de uma escadaria com tapete vermelho, o busto de D. João VI dá as boas vindas aos visitantes, que percorrem os salões suntuosos
Foto: George Magaraia

Logo na entrada principal, diante de uma escadaria com tapete vermelho, o busto de D. João VI dá as boas vindas aos visitantes, que percorrem os salões suntuosos

Manuscritos e cartografias

São mais de 800 mil manuscritos referentes à história brasileira, arquivos literários, fotos e registros de época. No setor de “cartografia”, 30 mil mapas e três mil atlas estão dispostos em imensas gavetas. Impressiona um deles, do começo do século 16, bastante colorido, com uma configuração bem diferente da visão de mundo atual – a América do Sul é “ilha Brasil” e a do Norte um trecho de terra definido como “Flórida”, nos oceanos estão desenhos de dragões e bestas.

Considerado a “UTI da biblioteca”, o setor de restauração é o local para onde se destinam peças que precisam de reparo urgente. Por lá já passou o precioso original de “Os Lusíadas”, de Luis de Camões, guardado sob sigilo total.

A exposição “Biblioteca Nacional 200 Anos: Uma Defesa do Infinito”, com curadoria do escritor Marco Lucchesi, marca a data comemorativa. De 3 de novembro a 25 de fevereiro, o público poderá ver de perto duzentas peças originais que compõem o acervo do lugar.

Entre as raridades expostas estão o fac-símile da primeira edição de “Os Lusíadas”; “A menina do narizinho arrebitado”, de 1920, de Monteiro Lobato; peças que integram edições de periódicos como o jornal “O Pasquim”; manuscritos de Clarice Lispector, Raul Pompéia, Castro Alves, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade; a ópera “O Guarani” (1871), de Carlos Gomes, entre outros.