A época dos livros-objeto
Obras em formatos incomuns mostram um potencial que vai além dos conteúdos verbais
Guilherme Bryan
O "livro-ninho" de Lyndee Nielson, faz com que tema bucolíco se concretize na forma editorial
Em 1982, o paranaense José Gaspar Chemin passava por uma pedreira quando chamou sua atenção a quantidade de arenitos espalhados pelo chão, resultantes de escavações realizadas em Campos Gerais, no oeste do Paraná. Poeta inédito, teve o estalo. E começou a escrever, com tinta e pincel, em pedras.
Hoje com 68 anos, Chemin batizou cada dístico de "poedra". Estimam-se em milhares as poedras escritas por ele até agora. A opção por esculpir mensagens em pedregulhos é, garante o autor, estética. Só a partir de 2009, suas poedras foram reunidas numa tetralogia: Quando Amo Versos Tramo; Tentes Ver Vertentes; Poemínimos Sentimáximos e Irreverência ou Morte! (Livraria Arte & Letra, 41 3039 6895).
- Escrevo na pedra por uma questão de beleza. Trata-se de uma obra de arte e de uma terapia extraordinária. Acredito que eu, como qualquer outro poeta, penso no que estou escrevendo, dado que precisei desenvolver muito o poder de síntese - diz Chemin.
Usar suportes inusitados para obras literárias já virou uma tradição editorial, com livros que assumem a forma de passaportes, caixinhas de fósforos, CDs e até manual de proprietário de carros. A experiência de obras literárias em formatos incomuns mostra um potencial maior do que apenas valorizar seus conteúdos verbais
- O experimentalismo é, por natureza, alternativa ao constituído, consolidado e muitas vezes restritivo. Mas não adianta usar engenhosidade plástica, tecnologia de produção avançada, recursos originais de montagem e seleção de imagens, se não tiver conteúdo, conceito, endereçamento e finalidade - garante a comunicadora e educadora Ana Paula Mathias de Paiva, autora do recente A Aventura do Livro Experimental (Autêntica - Edusp, 144 p., R$ 59, 2010).
Encontrar uma forma que realce o conteúdo levou o poeta Celso Borges a editar seu livro Música (editora Medusa, 2005) como um encarte de disco. O livro tem o formato de disco, com perfuração ao centro, como os antigos LPs, vem com CD gravado e as "faixas-poemas" são musicadas, integrando um Lado A e um Lado B do livro, formado por poesias visuais não tão ousadas, mas inventivas.
Manual
Tão ousadas e inventivas como os contos de Dois Palitos, do publicitário Samir Mesquita. Lançado em 2007, o livro-objeto reúne 50 microcontos, escritos com até 50 caracteres e que retratam bêbados, suicidas, divórcios e prostitutas, em uma caixinha de fósforos, que funciona de verdade.
- Dois Palitos surgiu durante uma oficina literária coordenada por Marcelino Freire, da qual participei. Na primeira aula, ele nos apresentou o gênero microconto e nos pediu que escrevesse um para a próxima aula na semana seguinte. Escrevi 80 e pensei: "Isso já é quase material para um livro rápido, para se ler em dois palitos". Assim tive a ideia do título e o projeto gráfico veio junto - conta.
O conceito a dar força ao projeto é o que dá sentido à iniciativa, diz o autor.
- O que torna adequado um texto para ser publicado em formato diferente é o conceito da obra. Se não houver um sentido, algo que justifique, é um formato vazio. Cada livro propõe uma relação diferente com o leitor. Alguns são para se carregar por aí. Outros para serem lidos em lugares de intimidade. Entendermos isso talvez seja o grande desafio para termos mais leitores - diz Samir.
A obra, hoje na 5ª tiragem e com 6 mil exemplares vendidos, rendeu o convite para participar da Mostra Sesc de Artes 2008, com a instalação "18:30", formada por carros em miniatura que abrigavam microcontos a respeito do caos do trânsito. Os textos são apresentados numa espécie de "livro-mapa", que reproduz os típicos "manuais do proprietário" de automóveis.
Experiências do gênero pipocam no horizonte editorial internacional, parte delas apresentada no livro de referências de Ana Paula, como o livro de poesias de Lyndee Nielson, em que versos bucólicos sobre pássaros são encadernados num "livro-ninho", o Know About West Nile, de 2004. Por tratar-se de produção trabalhosa, essas obras costumam ter uma proposta gráfica e de distribuição cuidadas pelos próprios autores, como é o caso de Samir e Chemin.
- O problema é quando erro. Porém, depois de milhares de poemas, frases e haicais escritos em pedras, que são distribuídas por mim e hoje estão espalhadas pelo mundo inteiro, adquiri uma infinidade de técnicas de improvisação - garante Chemin.
Reproduzindo em pedra, nas mais diferentes cores, também frases de escritores famosos como William Shakespeare e o poeta Paulo Leminski, Chemin garante ser melhor mesmo para o formato pedra os trocadilhos, como "Não vá com muita sede ao poste", reunidos em papel em Irreverência ou Morte!. Já Samir se organizou sozinho para ajustar-se ao desafio de um novo formato.
- O Dois Palitos teve publicação independente por uma questão de ansiedade minha (queria logo vê-lo na rua) e porque tinha noção das dificuldades na produção, o que, para uma editora tradicional, seria um grande entrave. 'Dois Palitos' é feito de maneira artesanal: o livro é impresso em uma gráfica, depois eu compro as caixinhas de fósforo, retiro os palitos e o rótulo, colo o rótulo novo, coloco o livreto dentro e depois faço os pacotinhos de 10 unidades para distribuir às livrarias - relata.
O escritor Fernando Bonassi, por sua vez, conseguiu convencer a editora Cosac Naify a lançar a obra Passaporte, de 2001, com 137 relatos de viagens realizadas desde 1998, no formato desse documento de viagens internacionais, que contém - no centro da capa dura de verde quase escuro e cantos arredondados, onde geralmente há um brasão de armas - uma lâmina de barbear.
- A Cosac Naify está aberta para discutir o formato da edição com os autores, quando isso é parte do projeto. Talvez seja a editora que mais faça isso, mesmo quando a proposta encarece a obra - diz o autor.
Segundo Bonassi, Passaporte nasceu com o formato: a redação dos contos obedece ao impacto quase instantâneo dos lugares que o autor visitou, em frases curtas, como carimbos de alfândega ("que, aliás, atravessei aos montes na velha Europa pré-euro", explica).
Formas alternativas de livro podem não raro representar uma reação ao crivo apertado do mercado editorial e até serem usadas em projetos de inclusão social. A ONG Dulcinéia Catadora reúne catadores de lixo de São Paulo. Integra uma rede latino-americana de projetos editoriais com entidades semelhantes, como a Eloísa Cartonera (Argentina), a Animita (Chile) e La Cartonera (México). Autores de alto quilate já publicaram edições caseiras, bem impressas e com capa pintada à mão pelos integrantes do coletivo, feita com papelão comprado de cooperativas de materiais recicláveis. É o caso do brasileiro Frederico Barbosa, com SigniCidade (2009) e o argentino Washington Cucurto, com 1999 - Poemas de Siempre, Poemas Nuevos y Nuevas Versiones (Eloísa Cartonera, 2007).
Em seu livro sobre o livro experimental, Ana Paula de Paiva mostra que os livros de hoje são resultado de uma longeva tradição de experimentações de formatos, estilos de letras, feitios gráficos, progressos técnicos e testes de ilustrações e colunagens. No fundo, o experimentalismo apenas prolonga as tentativas de apresentação eficiente das obras, comuns ao longo da história da indústria editorial. Hoje, consolida-se a ideia de que os livros devem despertar sentimentos dentro e fora do texto, na junção de conceitos reunidos entre capas, páginas, aberturas, imagens de apoio, formatos de obra. Livro com deleite de arte, para valorizar seu conteúdo e, se possível, até ultrapassá-lo.
Fonte: Revista da língua portuguesa