Projetos e estratégias de promoção de idiomas indígenas tentam conter ameaça de extinção
Pode um idioma considerado extinto e pouco documentado
ser novamente parte ativa do patrimônio linguístico? Essa é a aposta de
grupos indígenas e pesquisadores engajados na retomada das identidades
ameríndias e no combate ao silenciamento das línguas nativas do Brasil.
A
questão tem recebido apoio internacional, como mostra a recente
inclusão do ritual yaokwa do povo enaewene nawe (MT) na Lista de
Patrimônio Cultural Imaterial em Necessidade de Salvaguarda Urgente, da
Unesco. O Brasil já tem candidaturas engatilhadas para a relação, como o
projeto Documentação da Língua Poruborá, iniciativa do Museu Emílio
Goeldi, do Pará.
Os poruborá, de Rondônia, são um dos casos mais
recentes de reavivamento étnico e linguístico. Foram considerados
extintos na década de 1940 quando a população foi dizimada por doenças
advindas do contato. Mas em 1989 membros da etnia foram reconhecidos por
pesquisadores e, então, outros indígenas dispersos foram se reunindo
para reivindicar as terras onde viviam. Hoje há cerca de 300 poruborá,
dos quais só quatro idosos conhecem palavras e expressões na língua,
única dentro do tronco tupi.
A melhor maneira de saber como
ocorre uma revitalização linguística é examinando um marco na luta
indígena: a recuperação da língua pataxó. Eni Orlandi, da Universidade
Estadual de Campinas, esteve na equipe que coletou e analisou evidências
linguísticas que ajudaram a reconstituir a variante do pataxó falada
mais ao norte da região de Porto Seguro (BA), a hãhãhãe.
- Os
pataxós viveram perseguições e movimentos de dispersão. A partir dos
anos 80, entretanto, conseguiram criar um espaço em que reivindicaram
seu direito ao território tradicional que haviam perdido. Outras perdas
acompanharam essa. Entre os bens perdidos, estava a língua. A posse da
língua significa para eles o seu desejo de ser índio, em um momento de
ameaça de extermínio - diz a pesquisadora.
Guardiã
A
língua pataxó se mostrava ativa até o começo do século 20, quando
começaram as pressões para que o grupo mantivesse contato mais regular
com a sociedade. Devido à resistência, os pataxós ("índios do
descobrimento do Brasil") começaram a ser alvos de massacres e
deslocamentos forçados, como a grande expulsão ocorrida no governo de
Getúlio Vargas para a criação do Parque Nacional do Monte Pascoal.
Ante
a condição crítica, os pesquisadores contavam com meras listas de
palavras coletadas no Brasil colônia e depois por missionários e
indigenistas. Como tornar um conjunto minguado de itens lexicais em
língua viva, pronta para ser falada?
"A pesquisa foi feita em
condições difíceis: uma só informante, Baheta, muito idosa, sem
interlocutores reais (só os da memória, imaginados), e experimentando
dificuldades de lembrar; em condições de guerra à sua cultura; uma parte
da identidade estigmatizada, já votada ao esquecimento", diz Orlandi no
livro Terra à Vista, sobre o confronto discursivo nativos-colonizador,
atualizado nas políticas do Estado.
SobrevivênciaGraças
às reminiscências de Baheta, foram coletados dados suficientes para
comparar as listas de palavras que já se possuía e estabelecer paralelos
com línguas próximas, como o maxacali. Projetos de revitalização
linguística usam muito o recurso de recuperar formas da língua por
comparação com idiomas ainda falados, com os quais a língua extinta tem
vínculo genético. Com a ajuda da linguística histórica, os pesquisadores
estabelecem possíveis detalhes gramaticais, bem como mudanças no
repertório de sons. Os ensinamentos linguísticos da anciã pataxó foram
reunidos na cartilha Lições de Baheta, base para o atual ensino bilíngue nas aldeias do grupo.
Muitos
grupos indígenas, principalmente do Nordeste, não falam mais a língua
originária, só o português. Para muitos, trata-se de prova de que tais
populações estariam descaracterizadas, sem o direito de se autoafirmar
como indígenas. A recuperação de um idioma assume, com isso, um caráter
político, portanto. Mas tal pensamento reflete o desconhecimento em
relação ao processo de silenciamento das línguas nativas ocorrido na
história brasileira.
Até o século 18, o português não era sequer
língua corrente nos territórios do país. Tanto no eixo costeiro como no
que vai da foz do Amazonas ao interior da floresta, as principais
línguas faladas se baseavam nos idiomas tupis dos autóctones, a partir
da codificação feita pelos jesuítas. Com o governo do Marquês de Pombal,
segunda metade do século 18, as duas línguas francas tupis (a língua
geral na costa e o nheengatu na Amazônia) foram proscritas na colônia.
Medidas
similares foram adotadas em cada local para coibir os idiomas
considerados selvagens e entrave ao processo civilizatório das
províncias. Assim, a maioria dos povos indígenas abandonou o próprio
idioma por causa de perseguições e sobrevivência. Só em tempos recentes
encontraram espaço e apoio para reivindicar direitos tão elementares
como falar o próprio idioma.
As pressões, no entanto, continuam.
Por conta disso, muitos pesquisadores como Eni Orlandi defendem os
projetos de recuperação linguística, mas não que o uso do idioma seja o
critério para que os povos indígenas tenham acesso a direitos como o
território tradicional, em virtude de tal quadro histórico.
Não
são apenas projetos acadêmicos que visam preservar o patrimônio
linguístico. Grupos indígenas têm estratégias de manutenção da língua.
Pressão
Os xavantes focam a salvaguarda do idioma no processo de aquisição.
-
Para preservar a língua, os xavantes decidiram que as mulheres não
devem frequentar a escola e ter contato estreito com os brancos. Isso
porque toda criança aprende a língua xavante com elas. Assim, no momento
da aquisição, as crianças são expostas à forma da língua com menos
interferência do contato. É decisão política do grupo. A variante do
xavante falada pelas mulheres permanece usada pelos garotos até os 5
anos. Só depois, quando vão para a casa dos meninos, é que se ensina a
eles a língua que os homens adultos falam - diz Wellington Quintino, da
Universidade Estadual de Mato Grosso.
Estratégia quase intuitiva
foi tomada pelos krenak, que vivem em Minas Gerais. Por muito tempo se
acreditou que a língua krenak, também pertencente ao tronco macro-jê,
estava morta. Ocorre que os velhos, principalmente mulheres, tinham medo
de usar o krenak em público, por causa do preconceito linguístico.
Atualmente, o grande esforço do grupo é de que os membros mais jovens,
falantes monolíngues do português, voltem a falar o idioma.
As
iniciativas de revitalização, sob a forma de projetos acadêmicos ou de
estratégias das próprias etnias, dão a dimensão da complexidade da
diversidade linguística no Brasil.
Evandro Bonfim é jornalista e doutor em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ.
Fonte: Revista da língua portuguesa