Um olhar histórico mostra que muitos juízos sobre termos e expressões da atualidade desprezam o passado da língua
Contarei aqui duas pequenas experiências linguísticas. O objetivo é sugerir aos leitores que observem dados curiosos e tentem tratá-los adequadamente. As fontes dos dados podem ser as mais diversas. Muitas vezes, são os nossos alunos.
Num congresso de linguística, conheci uma pessoa que me "perseguiu" com perguntas, achando que poderia ajudá-la em seu mestrado, que analisava manuscritos mais ou menos antigos. Fazia o que se chama crítica genética. Mais tarde, soube que estava em Portugal. Soube por um cartão. Li as informações sobre o andamento do trabalho da remetente. Depois, fui ver de que cartão se tratava, afinal. Não era um desses cartões que mostram lugares que turistas devem visitar, ou nem precisam mais, porque os conhecem dos postais. Tratava-se de um cartão "profissional", como logo se verá.
DondeReproduz - ou imita - a capa de um livro chamado A Primeira parte da Cronica do Emperador Clarimvndo, donde os Reys de Portvgal Descendem. Como em muitos livros antigos, as letras vão diminuindo de tamanho a cada mudança de linha. O título ocupa quatro.
Como se sabe que é um livro antigo? Há bons indícios: a grafia "Portugal" e "Clarimundo" com v no lugar de u, a palavra "crônica" sem acento, "reis"com y, "imperador"com e, e, principalmente, pela palavra "donde": emperador dondo os reys de Portugal descendem. Se fosse atualizado, o título provavelmente não incluiria a palavra. Em seu lugar estaria "do qual": "imperador do qual (de quem) os reis de Portugal descendem". Além desses indícios, há uma data, embaixo, que torna mais precisa a época de sua escrita. O livro é de Antonio Aluarez (veja-se, agora, o u no lugar do v), e foi impresso em Lisboa em 1601.
Certamente, o leitor já ouviu pessoas, na rua ou entrevistadas em rádio e TV, dizendo coisas como "Fui falar com o chefe, onde me disse que...", em vez de "que me disse que...". Nas gramáticas e dicionários, "onde" é classificado primeiro como advérbio; depois, como pronome, mas só quando significa "em que", como em "Terra onde nasci", isto é, "Terra em que nasci". Nenhuma gramática, acho, registra "onde" como pronome que retoma um nome, como "prefeito" ou "Clarimundo".
O que se pode ver nessas conversas, comentadas por conterem exemplo de erro que seria recente, resultado de descuido ou incompetência do falante, é que "onde" funciona como espécie de coringa.
MiopiaTende-se a dizer que se trata de variante linguística que vêm de baixo, do povo que fala "errado". Mas o título, que é de 1601, indica que se trata de caso antigo - e não necessariamente popular! Pode estar ocorrendo com a palavra coisa semelhante a que ocorreu com "pissuir", que é minha segunda história.
No final de uma conferência em Campo Grande, há anos, um dos ouvintes forneceu um dado do português local. Tratava-se da fala de um tropeiro, que, perguntado por que se queixava de pobreza, se tinha uma dúzia de mulas, respondeu: "Pois é, a gente não pode pissuí, mas a gente pissói".
Desconhecendo muitos temas relevantes da nossa língua, entre os quais características do português do interior do Brasil, fiquei sem explicação sobre a origem da forma "pissuí". Comecei a formular e a eliminar hipóteses. Decorreria de "possuir", talvez por harmonia vocálica da vogal u com a anterior i, ambas altas? Talvez. Mas, e "pissói"? Neste caso, a harmonia vocálica não funciona. Em seguida, me dei conta de outros verbos terminados em "uir" que têm a forma "-ói", imaginei que talvez se tratasse de um caso de analogia. Se "construir > constrói", "destruir > destrói", por que não "po(i)ssuir > pissói"? Depois lembrei que "diluir" > *dilói" não funciona, nem "afluir > *aflói", etc.
HarmoniaUm dia, numa livraria, enquanto somavam minha compra, resolvi espiar um dicionário etimológico. Pois estava lá: a forma do verbo "possuir" no século 13 era "pessuir". Ou seja: não se tratava de invenção do tropeiro ou do grupo social a que pertencia. Se a forma escrita tinha sido "pessuir", tornava-se mais fácil explicar "pissuir": as vogais átonas médias (e, o) do português são alçadas há muito tempo (a flutuação é observada desde o século 15). Pode-se tratar de um caso de harmonia vocálica (este fator pode reforçar aquele), como em "mininu", em que e o primeiro e se torna i para concordar em altura com o i tônico.
Com essa descoberta na cabeça, lembrei-me de um livro ao qual não sei por que não recorrera antes: O Dialeto Caipira, de Amadeu Amaral. Fui direto ao léxico. Pois estava lá a informação do dicionário, com nuances, como a alusão ao galego.
"PISSUÍ, possuir - v. t. - adquirir, comprar: "... senão quando una galinha já esporuda que eu pissuí no levantá aquele rancho..." (V.S.). Quanto à forma, veio ela, muito provavelmente, do Port., haja vista ao galego "pessuir" (L. de Vasc., "Textos"). Quanto ao sentido, esse acreditamos que resultou de evolução feita aqui. Para exprimir a ideia do nosso "possuir", usa o caipira de "ter" ou de algum circunlóquio. Ao Nordeste, a aceitar-se como documento um verso de Cat., o verbo conserva o sentido castiço: "Era rico, apois pissuía / uma fortuna de gado" ("Quinca Micuá")."
Eis uma explicação para o i da primeira sílaba do verbo "possuir" na boa frase do tropeiro - "a gente não pode pissuí, mas a gente pissói".
DeturpaçõesAmadeu Amaral documenta fatos com os quais "pissuir" tem relação. Várias formas do dialeto caipira, longe de serem "corrupções" atuais da língua culta, são formas da antiga língua culta, conservadas no dialeto. Foi a língua urbana que mudou, e formas que eram corretas nos séculos 15 e 16 - que a escrita as documenta - são hoje associadas aos caipiras, pois só eles ainda as usam. Muitos supõem que são deturpações de formas corretas atuais, mas são as boas e velhas formas mantidas como tais.
O que ocorreu é que perderam prestígio. O leitor estranhará, mas entre formas caipiras que são do século 16 estão acupá, agardecê, dereito, escuitá, fruita, inxúito. E outras do mesmo calibre, como "alevantar", que está em Os Lusíadas ("Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta").
Um olhar histórico mostra que muitos juízos relativos a línguas e falantes podem ser apenas falsos.
Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso (Contexto)
Fonte: Revista da Língua portuguesa