A importância de se conservar os livros é que sempre podemos voltar a eles, e relendo rever nossos conceitos.
Lemos com nossa bagagem cultural.
O livro não é apenas a informção,seu conteúdo intelectual, mas é ,ele mesmo, em seus componentes - papel,impressão,encadernação etc- um documento.
Filologia
Descoberta saudável
Leitura de manual de médico de D. João V derruba tese de que idioma foi corrompido por negros e índios
Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida
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Por esse discurso estereotipado é comum dizer que do diversificado modo "brasileiro" de falar, distinto do modo "português", europeu, africano e asiático, surgiram realizações (do nível fonético ao sintático) nunca ditas e ouvidas ou escritas e lidas antes.
O argumento, para tanto, encontra chão em nossa história social e etnográfica. Por ela, acredita-se que tais realizações foram introduzidas no português, em terras brasileiras, por índios, em especial do tronco tupi-guarani, e africanos, principalmente o banto e o iorubá, que se viram obrigados a falar o idioma do europeu.
Por aí caminha G. Chaves de Melo (Iniciação à Filologia e à Linguística Portuguesa, 1971: 137-38), e outros, quando se refere a essa influência na formação do português do Brasil. É dele a opinião de que a língua lusitana, culta e "instrumento de civilização superior", suplantou, no século 18, sua concorrente, o tupi, a chamada língua geral dos brasilíndios.
Segundo Melo, os indígenas e as populações rurais e urbanas "de pouca cultura abandonaram o uso da língua tupi" em favor da românica, mas "falaram muito mal a nova língua", pois impinguaram-na com seu idioma materno "sem flexão, e de vocabulário pobre". E assim a "deformaram em dialetos crioulos".
Essa ideia é frutífera não só em relação à língua, estritamente. Quem nunca ouviu algo que responsabilize nossos ascendentes "pretos" e "gentios" pela "corrupção" de costumes ou cultura (no sentido lato) com que os patrícios portugueses vêm nos presenteando desde o século 16, quando Cabral cismou em nos "descobrir"?
TesteEntão, façamos o teste. A quem se atribuiria esta receita caseira para prisão de ventre: "A cabeça da sardinha e da sarda (ou cavala), usando-a como mecha ou supositório no intestino reto, promove a evacuação dos excrementos"? Ou esta simpatia, também comezinha, para febre: "As sardinhas bem salgadas e velhas, postas nas solas dos pés, têm virtudes para curar sezões"?
A resposta viria depressa. Pela lógica preconcebida, não é exagero dizer que só pode ser recomendação de nossas avós indígenas ou africanas. Afinal, é natural o brasileiro dizer que tem antepassado "pego a laço". E quase sempre é a avó.
Ora, pois! O contra-argumento pode ser extraído da mesma história. Porque não é de hoje que estudos sobre a língua, com perspectiva diacrônica, apontam exemplos, em vários níveis de análise, antigos no português falado no Brasil, dando-lhe matiz de variedade conservadora em oposição à inovadora europeia. Para tanto, buscam-se provas dessa vertente em textos de épocas anteriores.
Não há muito como fugir disto: se se quiser levantar o léxico do século 18, por exemplo, recorre-se a materiais literários e não literários daquele século. É dessa maneira que age o lexicógrafo interessado, dentre outras informações de um verbete, em sugerir a datação de uma palavra com suas acepções de antanho.
ImpinguarA primeira edição de Âncora Medicinal para Conservar a Vida com Saúde - manual de medicina de 1721, escrito por Francisco da Fonseca Henriquez, médico do rei D. João V (1689-1750) - pode ser uma dessas fontes de consulta para pesquisadores que têm a intenção, dentre outros temas, de mostrar o português [escrito] do final do século 17 e início do 18.
Encontram-se, nesse testemunho, no nível semântico-lexical, formas já substituídas por outras em dicionários atuais, como Houaiss e Aurélio. É o caso do verbo "impinguar", ressuscitado neste texto, que não está registrado nos dicionários. A forma substituta é "engordar", que, por sua vez, não encontra lugar na versão setecentista do manual.
No nível fonético, destacam-se palavras em Âncora que, apesar de estarem no Aurélio e no Houaiss, não são frequentes hoje no português brasileiro escrito e falado pelos que têm formação escolar: o verbo "alimpar" e os substantivos "embigo" e "rezão". Ressalte-se que as formas "umbigo" e "razão" não receberam tinta pela escrita do médico português. Já a forma "limpar", com duas aparições, coocorre com "alimpar", que, em virtude do número maior de ocorrências (14), provavelmente era a mais comum à época. Também merecem luz: "estâmago" (estômago) e "emprasto" (emplastro) que, ao lado de "alimpar", "embigo" e "rezão", são formas correntes na fala do interiorano, com mais idade e baixa escolaridade.
A vitalidade desses vocábulos nessa bula médica é prova resistente às dúvidas, caso existam, de quem acredita no mito de que essas aparências fonéticas sejam inovações brasílicas ou afras, jamais ditas na terra de Camões. Trata-se de manutenção, conservação, repetição, reinterpretação (como queiram nomear) de um sistema sonoro português descrito desde o galego-português.
VitalidadeO mesmo se aplica ao remédio para prisão de ventre recomendado pelo doutor Henriquez (1665-1731), que, para escrever sua Âncora Medicinal, não fez incursão etnográfica na cultura brasileira (menos ainda na indígena ou africana), mas foi buscar argumento de autoridade nos escritos do pai da medicina, o grego Hipócrates (460-377 a.C), sem esquecer de beber na fonte do cirurgião romano Cláudio Galeno (129-201), médico particular do imperador Marco Aurélio (121-180).
Podemos, então, retirar de nossas avós índias ou pretas toda responsabilidade pela disseminação das virtudes medicinais da sardinha e da cavala (ou sarda) em favor dos dureiros (ou de quem tem prisão de ventre) ou febris. Porque é sensato inferir que, antes de elas nascerem, mandatários portugueses, romanos e gregos já tivessem experimentado desses peixes além da mesa.
Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida é professor pesquisador livre-docente na área de Filologia e Língua Portuguesa da USP/CNPq e autor do Minidicionário livre da língua portuguesa (Hedra, 2011).
Fonte: Revista da língua portuguesa