Angeli - entrevista
Um desenho em transição
Cartunista discute a relação entre texto e imagem em sua obra enquanto lança coletânea para "enterrar" personagens que o consagram
Rê Bordosa, Bob Cuspe, Wood & Stock, Mata Hara, Meia Oito e os Skrotinhos. Angeli os criou e não vê a hora de se livrar definitivamente de todos eles. O desenhista, nascido em São Paulo, em 31 de agosto de 1956, terá seu trabalho reunido em coletâneas pela Companhia das Letras. A primeira, Toda Rê Bordosa, marca os 25 anos da "morte" da personagem, e acaba de chegar às livrarias.
É o começo do fim de muitos outros, garante. "Quero continuar fazendo tiras, mas pretendo não ter mais personagens. Desejo criar blocos com histórias que vão sendo pouco a pouco publicadas e tenham a força que os personagem tiveram. Ou então criar personagens sem nomes."
Alguns dos tipos por ele criados foram parar em filmes, como a animação Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock''n''Roll, dirigida por Otto Guerra em 2006; e Dossiê Rê Bordosa, de Cesar Cabral, em 2008. Mas Angeli resiste a transformar seus personagens em marcas de produtos, como ocorreu com Turma da Mônica e Snoopy.
Nesta entrevista, Angeli comenta seu autodidatismo e a relação entre desenho e escrita. Analisa o fato de estar mais maduro num momento que considera de transição, em que busca horizontes profissionais e começa a valorizar a qualidade do texto. Também cita a relação com os mestres Robert Crumb e Millôr Fernandes. Para, no final, concluir que é "apenas" um viciado em trabalho.
Como relaciona texto e imagem e que importância tem o idioma no seu trabalho?
Antes de tudo, eu fui um péssimo aluno de português. Na verdade, não concluí nem o antigo primário e o ginásio. Foi tudo muito caótico. Então, sempre tive atenção ao português na hora de trabalhar algum personagem, até por insegurança. De pensar: "Será que está tudo certo e claro o que estou escrevendo?". Não sei como são os outros cartunistas, mas penso tudo junto - o texto e a imagem. Não penso as imagens e daí que texto eu vou colocar nelas. A coisa vem praticamente pronta. Depois faço pequenos acertos aqui e ali, ou mudo algo.
Em alguns personagens, o texto ganha relevância maior do que o desenho?
Tenho um lado verborrágico. Rê Bordosa e Bob Cuspe tinham muito texto. Mas há personagens em que a palavra não é tão importante. Fiz a série LoveStórias, em que, na maior parte dela, o texto está em segundo plano e às vezes nem precisa aparecer tanto. Pode ficar com uma frase num balão. Gosto quando chego nesse ponto de não precisar usar muito texto.
Como era a linguagem de quadrinhos na década de 70, e qual a importância da mudança de linguagem no início dos anos 80?
De alguma forma, eu já buscava ter uma linguagem mais solta, sem ser rebuscado e usar um pouco o jeito que se fala na rua. Até hoje acho que escrevo desse modo. O Henfil tinha um pouco isso também, tanto que alterava a palavra para que ficasse parecida cada vez mais com o jeito com que as pessoas falam. Mas eu já estava percebendo alguma coisa próxima de mim, que traria a linguagem de um grupo de pessoas nascida na época da ditadura e, de certa forma, ajudou a amolecer um pouco a dureza das artes, da televisão, de tudo. Foi tão natural e simples essa invertida de parar de pensar um texto mais rebuscado e ir para algo que carregasse gírias e essa forma coloquial de se falar, que talvez nem saiba explicar.
Havia uma preocupação literária nesse trabalho?
Talvez eu tenha essa preocupação mais agora, porque abandonei os personagens e estou reformulando minha cabeça e meu trabalho. O texto ganhou um pouquinho de força. Em alguns momentos, me peguei fazendo coisas mais cuidadas. Por exemplo, fiz uma série dos Irmãos Kowalski, há uns dois ou três anos, em que o texto era fundamental e não só um final de piada. Tinha um discurso ali no qual eu me empenhei em fazer algo mais amplo, em vez de falar só com a galera. Ali compreendi mais como se usa o texto numa história em quadrinhos. Estou limpando um pouco a sujeira da rua e tentando formatar de uma forma diferente, não só os personagens, mas a charge, que é muito simples. É um quadro só, com uma mensagem direta.
De que modo essa mudança tem se manifestado nas charges?
Se antes eu condensava o texto na charge, para ser curto e grosso, eu tenho agora apostado mais em algo com texto mais complexo. Mas ainda não cheguei ao ponto. Como fiquei um período de férias, na primeira charge que voltei a fazer percebi que ela estava mais complexa, não no desenho, mas no discurso. Só que faço tudo de maneira muito intuitiva. Por ser autodidata, tenho um jeito próprio de construir as coisas. Quem quer se comunicar, arruma um jeitinho de burlar as dificuldades.
Então há uma maior preocupação agora com a linguagem?
Eu acho que sim. Quando penso numa charge ou numa tira, ela vem como uma bola que contém tudo o que quero e tenho, de alguma forma, de puxar um fiozinho e desenrolar o carretel. Assim, tenho percebido uma maior preocupação em desenrolar mesmo, assim como estou mais preocupado em perceber a linguagem do retratado. Por exemplo, no caso de um senador que está para ser julgado, eu vou usar um pouco o palavreado e a entonação dele. Antes eu não fazia isso. Tenho problemas que vêm da infância, a coisa de má criação, de, em vez de ir para a escola, ir para o campinho de futebol. Então, se quero mudar o meu trabalho, tenho de pensar um pouco mais sobre o texto e usar gírias apenas se necessário, mas não forçar aquela coisa: "Veja como sou moderno e como falo com a galera".
Mas há preocupação em atingir um público-alvo?
Público-alvo, não, mas, por ser um cara de 56 anos, que já não tem mais esse afã de comer todas as mulheres e ser o cara mais malucão, acabo conversando com pessoas dessa idade. O meu trabalho agora é dirigido a questões de minorias e liberação da maconha, que são temas que me interessam. Quero é discutir mais profundamente essas coisas, fazer comparações e mostrar para o público o quanto essas discussões ajudariam para se viver num país mais aberto, compreensível com as diferenças. Mas não serei fofo. Eu não consigo ser.
Você é mais influenciado por escritores ou desenhistas?
Eu adorava Charles Bukowski, mas não consigo mais lê-lo. Acho um cara muito chato, com um texto muito malfeito. A poesia dele é bacana, mas, nas crônicas, vejo uma coisa cansada e meio jogada. Então isso já é um sinal de mudança, pois era um ídolo para mim. Agora meus ídolos nos desenhos são Millôr Fernandes, que é um cara com quem, um pouco antes de ele morrer, eu trabalhei, ilustrando um livro, que ficou muito bacana. Foi um trabalho que me deu prazer e me fez sentir agraciado. Lá do céu veio a mãozinha do Millôr, dizendo: "Ilustre o meu livro" (risos). Eu fiquei feliz da vida. Sempre fui muito fã dele, mas achava que era algo que nunca atingiria. Então, nos últimos anos, ele tem sido uma influência maior do que era antes. Agora, tem uma influência que não posso nunca jogar no lixo, que é o Robert Crumb. Eu aprendi lendo Crumb. Em alguns momentos, até corri o risco de ser extremamente influenciado por ele. Tenho apagado esse risco também.
Fonte: Revista da língua portuguesa