"Pop" e "irreverente", Paulo Leminski continua influente 24 anos após sua morte
Antologia poética do autor bateu "50 Tons de Cinza" em ranking de mais vendidos; especialistas comentam obra
Fernando Antonialli, iG São Paulo |
- Atualizada às
Muitos são os adjetivos que acompanham o nome de Paulo
Leminski. Escritor, crítico literário, tradutor, professor e judoca
faixa-preta são alguns, mas o maior de todos é o de poeta. Com a
antologia "Toda Poesia", lançada em fevereiro pela Companhia das Letras,
o autor cuja morte completa 24 anos nesta sexta (7) mostra ser ainda
relevante: bateu, em março, "50 Tons de Cinza" no ranking dos mais vendidos da Livraria Cultura.
"É uma poesia super-irreverente." É essa a
principal característica apontada por Noemi Jaffe, doutora em Literatura
Brasileira e professora da PUC-SP, nos versos de Leminski que permite
que eles resistam ao tempo. "[Ele] consegue falar em uma linguagem muito
pop, em uma linguagem simples e sem nenhum floreio. Não há a
dificuldade de se entender nada, é bem visual."
"A razão que imagino para um 'estouro' de
vendas", diz Alcir Pécora, professor de literatura na Universidade
Estadual de Campinas, sobre o sucesso de "Toda Poesia", "seria o
destaque dado ao lado mais fácil de sua poesia, que junta humor, certas
espertezas verbais, poemas com jeito de letra pop e algum tipo de
pensamento rápido para a sabedoria da vida. A química de tudo isso,
associada a uma campanha publicitária profissional, talvez possa ser um
indício de explicação".
Já para o escritor Joca Reiners Terron,
vencedor do prêmio Machado de Assis na categoria melhor romance com "Do
Fundo do Poço se Vê a Lua", é a proximidade do meio virtual que garente a
Leminski sua popularidade. "A poesia dele tem grandes qualidades, mas
algumas características, como o humor, a linguagem urgente e até uma
certa melancolia – que ele chamava de parnasianismo chic –, que se
adequam à linguagem da internet, das mídias sociais", afirma.
Porém, para Sofia Mariutti, editora da
antologia "Toda Poesia", o sucesso do livro pode ter acontecido devido a
outros fatores. "O carisma, que ele sempre teve e cresceu com os anos,
gerou uma legião de fãs", afirma. No entanto, a dificuldade de se
encontrar os livros do autor podem ter atraído uma bem-vinda atenção
para o lançamento. "A obra dele estava muito escassa, o que talvez tenha
ajudado, ou talvez pelo fato de ser a poesia inteira reunida em um
volume com capa de apelo forte".
Para Alcir Pécora, Leminski é autor de uma
poesia "que se entende rapidamente, sem deixar de contar com finezas
verbais e sentido poético; poesia que geralmente carrega uma mensagem e
capaz de falar de coisas concretas, tangíveis. Acho que isso atrai mais
do que a tendência abstratizante de grande parte da poesia lírica
contemporânea".
Reprodução
"Toda Poesia", antologia de Paulo Leminski
Trajetória
Filho de pai polonês e mãe negra, Paulo
Leminski Filho nasceu no dia 24 de agosto de 1944, em Curitiba. Quando
criança, já participava de concursos de poesia, mas só foi ter trabalhos
publicados em 1964, quando cinco poemas apareceram nas páginas da
Revista Inverção.
No ano seguinte, lecionou história e redação em cursos pré-vestibular enquanto também trabalhava como professor de judô.
Mas o autor não se limitou aos poemas. Nos anos 1970 e
1980, Leminski expandiu seu leque de atuação escrevendo obras em prosa,
biografias, ensaios e traduções. Nomes como Samuel Beckett e James Joyce
receberam versões em portiguês pelas mãos do curitibano, que também
testava seu próprio talento como autor, como na prosa experimental "O
Catatau", de 1975.
E ele não parou por aí. Entrou para o mundo da música ao
escrever "Verduras", gravada por Caetano Veloso em 1981. O próximo passo
foi assumir os vocais, o que fez principalmente em parceria com nomes
como Moraes Moreira, Ivo Rodrigues e José Miguel Wisnik.
Dos inúmeros expontes da prolífica carreira de Paulo
Leminski, são as poesias as obras mais lembradas - e influentes. Sua
antologia poética, que em pleno século 21 chegou ao topo dos mais
vendidos, mostra como seus versos ainda se comunicam com o público.
Paulo Leminski morreu em 1989, por consequencia de um cirrose hepática da sofria já a alguns anos.