Carta pra todo mundo: leitura de escritos íntimos
Escrito por Marcos Antonio de Moraes em 21 de outubro de 2014
Imaginação. Estamos em 1989. Entremos silenciosamente nesta sala de apartamento da rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, Rio de Janeiro. Quietos: olhem para aquela mulher, cabelos branquíssimos, mãos frágeis, dedos longos maltratados pela artrose. Tem 85 anos. Por todos os lados, reparem, livros, revistas, papéis… Gatos espiam, docemente desconfiados. Óculos de lentes grossas, a velha senhora, de sua mesa de trabalho, observa as milhares de lombadas de obras de sua biblioteca. Está presa em uma cadeira de rodas há cinco anos. Movimenta-se com dificuldade, mas o pensamento encontra-se desde sempre liberto, voa sem medo, mergulhada em si própria e, ao mesmo tempo, atenta à realidade. Como num filme, imagens rapidíssimas, situações, gestos, lutas se concentram: a infância em Maceió, ao lado do pai, aprendendo geometria; a menina de 15 anos, na Bahia, única estudante de medicina, entre tantos rapazes; depois, o difícil início de vida profissional no Rio de Janeiro; hábitos humildes no bairro de Santa Teresa, vizinha do poeta Manuel Bandeira; os namoros com o comunismo; a escolha profissional no campo da neurologia; a prisão, em 1936, denunciada por suas leituras marxistas. A memória avança ainda mais rapidamente; a liberdade, a estratégica fuga para o nordeste; seis anos depois, novos tempos, o retorno ao Rio. Vida profissional. Novas ideias para o tratamento mais humano dos doentes mentais do Centro Psiquiátrico Pedro II; a arte e os animais no processo terapêutico; as “mandalas’ dos “clientes” (nunca “pacientes”!), uma carta para Jung. O inconsciente e mitologias; mergulhos sem medo. Tempo, tempo. O grupo de estudos por ela coordenado, devotando-se a leituras da obra do psicoterapeuta suíço; o Museu de Imagens do Inconsciente; a Casa das Palmeiras… A velha senhora movimenta a cabeça, fixando o olhar nos livros. Vai enumerando leituras prediletas: Jung, claro!, Machado de Assis, Antonin Artaud, Shakespeare, Dostoievski, Proust… A visão detém-se-se nos livros de Spinoza, o filósofo holandês do século XVII; sobre a mesa, sempre, ali, muito manuseado, a Ética. Num gesto entusiasmado, agarra a caneta, recupera da gaveta um maço de anotações de leitura, e começa a escrever, sorriso infantil nos lábios, transmitindo vigorosa iluminação. Vamos nos aproximando dela, já é possível ler algo. A caligrafia da doutora Nise da Silveira avança… É uma carta! No cabeçalho: “Meu caro Spinoza”…
Namoros com a literatura. A psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) atribuiu grande importância à literatura, percebendo nela fonte de conhecimentos, inclusive, científicos. Em entrevista a Lúcia Leão, em 1977, dizia ter chegado a formular um conceito mais complexo da esquizofrenia, por meio de concepções do dramaturgo francês Artaud. Acrescenta: “E pela literatura eu tenho [...] encontrado percepções finíssimas sobre a psique humana. O que aprendi com Dostoievski, com Machado de Assis, não tem medida.” (p.135). O biógrafo Bernardo Horta também traz à tona o rompante da psiquiatra, em face dos jargões papagueados por jovens estudantes de medicina: “Rasguem os manuais de psiquiatria! Leiam Machado de Assis. Seria mais proveitoso trocar certos tratados de psiquiatria pelos livros deste que é o maior escritor brasileiro de todos os tempos, meu primeiro grande mestre de psicologia. Suas obras analisam com mais profundidade a alma humana.” (p. 98). Nas Cartas a Spinoza, escrevendo sobre (e para) um filósofo falecido em 1677, ela também empresta da literatura os voos da imaginação criadora.
Processo de criação. A correspondência que Nise da Silveira trocou com o poeta Marco Lucchesi deixa entrever alguns momentos do processo de criação das Cartas a Spinoza. Em junho de 1989, comunicava ao jovem amigo: “Junto mando-lhe um rascunho [da primeira carta]. Gostaria de discuti-lo com você tranquilamente, se não o julgar demasiado louco. O mesmo veículo que me levou a Rijinsburg me levará a Pisa. Já estou estudando o mapa.” (p.19). Em outubro, menciona novamente o trabalho que, então, parecia chegar a termo: “Caminharei agora para a VII e última. O tema será a morte. Cabeça fria!” (p.23). O que pode parecer “louco” é o “veículo” escolhido para a concretização de um texto ensaístico (enraizado em leituras no terreno filosófico e dos estudos de psicologia), ou seja, a imaginação, em sua plenitude, liberta de amarras temporais, carregando o diálogo epistolar para as águas da efabulação. Sob ponto de vista do “assunto” das cartas, Nise, responde a Ferreira Gullar, em 1991, quando este lhe indaga o motivo do grande interesse pela obra de Spinoza. De forma sintética, mostra a intenção de valorizar no pensamento do filósofo o sentido da “intuição da totalidade” (p. 33).
Espelhos. Nas cartas imaginárias, Nise busca definir uma caracterização moral do filósofo, passando pela biografia dele. Na primeira carta, mostra Spinoza transgressor, “ainda muito jovem”, recusando “os rígidos ensinamentos” dos mestres de sua religião, sendo por isso expulso da comunidade “como um maldito”. Essa personalidade questionadora desdobra-se, nas missivas, na figuração de Jung: “Embora nem sempre ele estivesse de acordo com suas posições, caro Spinoza, Jung era um homem que, como você, navegava na contracorrente do seu tempo.” A aproximação dessas personalidades da cultura que avançam no terreno do conhecimento humano porque rejeitam posturas estagnadas acaba, de algum modo, também conformando a autorrepresentação da própria Nise, “rebelde”, na contracorrente de pensamentos viciados no campo da medicina psiquiátrica.
Autobiografia enviesada. Nise da Silveira mostrava-se avessa ao desvelamento de sua intimidade. Em 1993, irá dizer a Márcia Guimarães: “minha vida tem sido o meu trabalho, e o meu trabalho tem sido a minha vida” (p.186). Exprime, contudo, na primeira carta a Spinoza os sofrimentos e contradições da jovem Nise, registrando o encontro com a obra de Spinoza: “[Por volta de 1920] seu Livro maior – a Ética – chegou às minhas mãos, numa pequena cidade do nordeste do Brasil, chamada Maceió. Parece incrível. Eu estava vivendo um período de muito sofrimento e contradições. Logo às primeiras páginas, fui atingida. As dez mil coisas que me inquietavam dissiparam-se quase, enfraquecendo-se a importância que eu lhes atribuía. Outros valores impunham-se agora. Continuei sofrendo, mas de uma maneira diferente.” Nas Cartas a Spinoza, Narciso talvez preferisse se ver refletido na figura do filósofo que tanto a magnetizava, fundindo-se a ele.
Partilha. O leitor das Cartas a Spinoza encontra nas avaliações críticas de Nise da Silveira um instigante guia para a compreensão das linhas mestras do pensamento do filósofo, de seu modo de refletir sobre a “visão unitária do universo”, a sua particular concepção de ética “que não visa ditar regras de conduta”, o seu mergulho na “essência da natureza humana” e muito mais. Primeiro, segue-se de perto o modo como ela lê e relê os livros de Spinoza, detectando impasses, sentidos herméticos, acusando compreensivamente as sombras que aqui e ali surgem na figura do mestre. Afinal, por que o filósofo, advogando uma concepção “unitária do mundo”, não teria valorizado a vivência interna dos “bichos”? Estudiosa, Nise, percorre também outras obras, de interpretação, que ajudam a iluminar trechos de sua explanação. Como bem ensinou Will Durant, em sua História da filosofia: “o livro Ética, [...] não é para ser lido, mas para ser estudado. [...] Não se pense em chegar ao cerne passando rapidamente por ele, nunca, em trabalho de filosofia, houve tão pouca coisa que pudesse ser saltada sem prejuízo. [...] Leia o livro, não todo de uma vez, mas em pequenas porções em muitas sessões. E ao terminá-lo, pense que apenas começou a compreendê-lo. [...] Quando o tiver terminado uma segunda vez, ficará para sempre um apaixonado pela filosofia.” Spinoza, nas Cartas de Nise, vale em sua figuração radical, em suas formulações geométricas irrepreensíveis; vale igualmente pelas conexões que a sua obra favorece, na leitura abrangente e empenhada da psiquiatra brasileira. Assim, a “totalidade” prevista no pensamento do filósofo antecipa, de algum modo, o sentido da psique humana, na percepção de Jung. Vincula-se à cosmovisão budista do mundo; dialoga com a Einstein e a física moderna. Vilegiaturas do conhecimento. E não é por isso mesmo, pela fulgurante dimensão intelectual, humanística e estética do texto, que tanta gente se sente atraída pelas Cartas a Spinoza?
Posta restante. BEZERRA, Elvia. A trinca do Curvelo: Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. GULLAR, Ferreira. Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996. HORTA, Bernardo Carneiro.Nise: arqueóloga dos mares. 2.ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. LUCCHESI, Marco. Viagem a Florença: cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Rocco, 2003. SILVEIRA, Nise. Nise da Silveira [Entrevistas] (organização Luiz Carlos Mello). Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009. SILVEIRA, Nise da. Cartas a Spinoza. 2.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1999 [1. ed. 1990]. Apresento aqui trechos de comunicação inédita que proferi no IV Encontro de Arte & Saúde Mental, no Rio de Janeiro, em 2010.
Marcos Antonio de Moraes

Marcos Antonio de Moraes é graduado em Letras; mestre e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Docente e pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Membro da Equipe Mário de Andrade no IEB-USP. Desenvolve pesquisas interdisciplinares, focalizando as relações entre literatura brasileira e memorialismo (correspondência de escritores). Recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro na categoria Teoria/Crítica Literária, pela obra Câmara Cascudo e Mário de Andrade – cartas 1924-1944 (Global, 2010). Recebeu o prêmio Jabuti na categoria Ensaio e Biografia com o livro Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira (Edusp/IEB, 2000).