Entrevista
Crítico que discute a existência de uma crise do contemporâneo tem alguns de seus textos sobre escritores da atualidade compilados em e-book
Por Camila Ploennes

Para Alcir Pécora, a ficção contemporânea é genérica, pouco marcante. E enquanto crescem as apostas em eventos literários, o crítico e professor de teoria literária da Unicamp, atuante desde os anos 70, enxerga apenas na melhoria do ensino um caminho real para avanços qualitativos na criação de literatura no país.
Alguns pontos de vista de Pécora podem parecer polêmicos, mas são motivados por uma análise sistemática da produção literária brasileira e internacional, que leva em conta o papel da literatura antes e depois do processo de globalização, e que, em termos estéticos, nota a conservação de um modelo de escrita do século 19 nas obras mais recentes.
Medida por Medida (e-galáxia), e-book lançado neste ano, reúne 28 textos publicados por Pécora na coluna mensal que mantém na revista Cult, nos quais ele avalia livros de diferentes autores e áreas - incluindo a própria crítica literária, que também viveria agora, ao lado da literatura, esse "momento dilema", como o crítico explica na entrevista a seguir.
O senhor diz não ter mais tanto prazer em ler romances quanto tem ao ler teóricos da história ou da filosofia, por exemplo. A literatura se esgotou?
Não acho que ela se esgotou, mas ela vive um momento-dilema, uma espécie de entretempo em que ela não está bem resolvida. Por um lado, a literatura ocupava um lugar central no mundo da cultura quando era de alguma maneira associada à construção do Estado-Nação e ao sentimento de uma comunidade nacional. Então, enquanto a literatura participou da construção desse Estado-Nação, dessa comunidade imaginária das várias nações, do Brasil e de cada um dos países, do século 19 até a década de 60 do 20, ela teve um lugar absolutamente central, porque era ela que discutia não só os componentes de formação do país, as classes, as forças históricas, como os sentimentos envolvidos nesse apego à comunidade nacional. Isso está discutido por muitos autores. Por outro lado, agora, posteriormente à década de 60, a literatura de alguma maneira passa por transformações com o processo de globalização - quando o capital começa a circular muito mais internacionalmente e existe um enfraquecimento do Estado de modo geral. Quer dizer, o grande movimento econômico já não se centra no Estado, mas tem mais essa circulação internacional. Os lugares em que a literatura tende a ser mais valorizada são aqueles de defesa de direitos de grupos minoritários.
Não acho que ela se esgotou, mas ela vive um momento-dilema, uma espécie de entretempo em que ela não está bem resolvida. Por um lado, a literatura ocupava um lugar central no mundo da cultura quando era de alguma maneira associada à construção do Estado-Nação e ao sentimento de uma comunidade nacional. Então, enquanto a literatura participou da construção desse Estado-Nação, dessa comunidade imaginária das várias nações, do Brasil e de cada um dos países, do século 19 até a década de 60 do 20, ela teve um lugar absolutamente central, porque era ela que discutia não só os componentes de formação do país, as classes, as forças históricas, como os sentimentos envolvidos nesse apego à comunidade nacional. Isso está discutido por muitos autores. Por outro lado, agora, posteriormente à década de 60, a literatura de alguma maneira passa por transformações com o processo de globalização - quando o capital começa a circular muito mais internacionalmente e existe um enfraquecimento do Estado de modo geral. Quer dizer, o grande movimento econômico já não se centra no Estado, mas tem mais essa circulação internacional. Os lugares em que a literatura tende a ser mais valorizada são aqueles de defesa de direitos de grupos minoritários.
De que modo?
Por exemplo: na década de 60, com os movimentos de defesa dos negros, e na de 70, com a defesa da mulher. Hoje temos o que se chama de queer literature, a literatura gay. Enfim, raça, gênero, religião. Agora, a literatura se vincula mais a esses grupos minoritários ou que de alguma maneira sofrem algum tipo de resistência, e até então permaneciam fora do chamado cânone, ou seja, da literatura que era ensinada na escola, e passa a ser o objeto central da discussão, do que entra ou não entra no cânone, do que deve ser incorporado a esse cânone ensinado na escola. Hoje há uma dispersão daquilo que permanecia em torno da questão da nação e do cânone mais ou menos estabelecido para uma disputa em torno de outros autores e que representam diferentes grupos sociais.
Por exemplo: na década de 60, com os movimentos de defesa dos negros, e na de 70, com a defesa da mulher. Hoje temos o que se chama de queer literature, a literatura gay. Enfim, raça, gênero, religião. Agora, a literatura se vincula mais a esses grupos minoritários ou que de alguma maneira sofrem algum tipo de resistência, e até então permaneciam fora do chamado cânone, ou seja, da literatura que era ensinada na escola, e passa a ser o objeto central da discussão, do que entra ou não entra no cânone, do que deve ser incorporado a esse cânone ensinado na escola. Hoje há uma dispersão daquilo que permanecia em torno da questão da nação e do cânone mais ou menos estabelecido para uma disputa em torno de outros autores e que representam diferentes grupos sociais.
E isso mudou a crítica...
Sim, quando a literatura passou a estar mais presente nesses grupos, a ideia de crítica também mudou. Se houve algum tipo de avanço foi no sentido de que a literatura passou a se interessar por questões democráticas e, portanto, a incorporar livros não canônicos relativos a minorias. Por outro lado, ela passa a agir muito em torno de grupos que muitas vezes são sectários, fazendo com que ela raramente ganhe mais amplitude, mais qualidade. Não se está interessado em se a literatura é boa ou não é boa. O valor crítico, a discussão, cai muito, perde interesse, em função de se valorizar acima de tudo o ativismo. Há mais um crescimento da perspectiva ativista do que um interesse grande pela questão estética. Então, a partir desse novo interesse, a grande produção literária circula em torno desses grupos mais ou menos restritos, sem grandes ambições, sem grande capacidade de expansão em termos universais, ou de longa duração. Porque em geral são obras marcadas por alguns períodos que não levantam muito interesse em seguida. Por isso eu chamo isso de momento-dilema ou de crise, em que a literatura não está resolvida. Nesse momento, ela perde a centralidade.
Sim, quando a literatura passou a estar mais presente nesses grupos, a ideia de crítica também mudou. Se houve algum tipo de avanço foi no sentido de que a literatura passou a se interessar por questões democráticas e, portanto, a incorporar livros não canônicos relativos a minorias. Por outro lado, ela passa a agir muito em torno de grupos que muitas vezes são sectários, fazendo com que ela raramente ganhe mais amplitude, mais qualidade. Não se está interessado em se a literatura é boa ou não é boa. O valor crítico, a discussão, cai muito, perde interesse, em função de se valorizar acima de tudo o ativismo. Há mais um crescimento da perspectiva ativista do que um interesse grande pela questão estética. Então, a partir desse novo interesse, a grande produção literária circula em torno desses grupos mais ou menos restritos, sem grandes ambições, sem grande capacidade de expansão em termos universais, ou de longa duração. Porque em geral são obras marcadas por alguns períodos que não levantam muito interesse em seguida. Por isso eu chamo isso de momento-dilema ou de crise, em que a literatura não está resolvida. Nesse momento, ela perde a centralidade.
E quais seriam as marcas dessa ficção contemporânea?
Não acho que ela tenha uma característica, mas que ela é pouco marcante. Tem mais uma ideia de genérico e não de literatura marcante, com um caráter particular. Não é, por exemplo, uma literatura política ou psicológica ou de análise das forças históricas. São esquemas narrativos, fórmulas de narração, em geral, com um modelo mais ou menos tradicional romanesco do século 19. Há muito pouco esforço experimental ou investigativo, de invenção, de exigência do novo nessa literatura. Mas acho que o termo "genérico" explica bem.
Não acho que ela tenha uma característica, mas que ela é pouco marcante. Tem mais uma ideia de genérico e não de literatura marcante, com um caráter particular. Não é, por exemplo, uma literatura política ou psicológica ou de análise das forças históricas. São esquemas narrativos, fórmulas de narração, em geral, com um modelo mais ou menos tradicional romanesco do século 19. Há muito pouco esforço experimental ou investigativo, de invenção, de exigência do novo nessa literatura. Mas acho que o termo "genérico" explica bem.
Quem sai perdendo?
O que perde, sobretudo, é a literatura de invenção, que de alguma maneira ainda pretende construir um elemento que não é preestabelecido. E o que ocorre hoje é mais a introdução de lugares-comuns ou a expansão de subjetividades já estabelecidas.
O que perde, sobretudo, é a literatura de invenção, que de alguma maneira ainda pretende construir um elemento que não é preestabelecido. E o que ocorre hoje é mais a introdução de lugares-comuns ou a expansão de subjetividades já estabelecidas.
A profissionalização do escritor ou o crescimento do mercado de livros contribuíram para homogeneizar a produção?
É curioso, porque em princípio não precisaria haver essa relação. O mercado profissionalizado poderia estar a serviço de uma produção de alto nível. Mas, de fato, na prática, aparentemente ocorre isso: houve uma profissionalização do mercado, houve uma exigência de colocação internacional do livro, submetendo-o a algumas regras do mercado, mas houve pouca criação efetiva que sustentasse uma literatura forte no meio de um ambiente em que o comércio dita as regras.
É curioso, porque em princípio não precisaria haver essa relação. O mercado profissionalizado poderia estar a serviço de uma produção de alto nível. Mas, de fato, na prática, aparentemente ocorre isso: houve uma profissionalização do mercado, houve uma exigência de colocação internacional do livro, submetendo-o a algumas regras do mercado, mas houve pouca criação efetiva que sustentasse uma literatura forte no meio de um ambiente em que o comércio dita as regras.
E o que pode fazer a produção literária no Brasil melhorar?
Normalmente as pessoas enxergam com otimismo os vários tipos de eventos, prêmios, eventos particulares, festas, baladas, campeonatos, todas essas coisas episódicas. Acho que isso de fato pode servir para tornar mais conhecido um ou outro autor, pode servir para movimentar a cidade onde é realizado e até para atrair novos leitores. Mas, do ponto de vista da criação, sobretudo essa criação exigente que nós estamos comentando, só é possível melhorar a produção a partir da melhoria do ensino. Eventos episódicos são a saída do processo. O que tem de ser feito de fato é investimento na educação. Sem que haja uma base cultural sólida do conjunto da população, fica muito difícil. É claro que pode surgir um grande escritor como um milagre, inesperadamente, porque ninguém determina um extraordinário escritor. Ele pode aparecer no lugar mais despropositado, mas a qualidade média, aquilo que é sustentável como produção de qualidade em termos mais sistemáticos, certamente depende de qualidade da educação. É isso o que mais falta no Brasil.
Normalmente as pessoas enxergam com otimismo os vários tipos de eventos, prêmios, eventos particulares, festas, baladas, campeonatos, todas essas coisas episódicas. Acho que isso de fato pode servir para tornar mais conhecido um ou outro autor, pode servir para movimentar a cidade onde é realizado e até para atrair novos leitores. Mas, do ponto de vista da criação, sobretudo essa criação exigente que nós estamos comentando, só é possível melhorar a produção a partir da melhoria do ensino. Eventos episódicos são a saída do processo. O que tem de ser feito de fato é investimento na educação. Sem que haja uma base cultural sólida do conjunto da população, fica muito difícil. É claro que pode surgir um grande escritor como um milagre, inesperadamente, porque ninguém determina um extraordinário escritor. Ele pode aparecer no lugar mais despropositado, mas a qualidade média, aquilo que é sustentável como produção de qualidade em termos mais sistemáticos, certamente depende de qualidade da educação. É isso o que mais falta no Brasil.
A crítica perdeu espaço no Brasil?
É uma discussão longa, mas, sim, ela perdeu espaço. Porque a crítica era importante no Brasil, em um primeiro momento, nas redações dos jornais. Não era feita por pessoas das universidades, mas por importantes eruditos que trabalhavam com cultura. Penso em Brito Broca, Alexandre Eulálio, Otto Maria Carpeaux, Mario Faustino, o próprio Antonio Candido... era uma enorme quantidade de gente estudiosa, culta, que frequentava artes e ocupava os lugares nos jornais. Isso, por um lado, se desmantelou: essa erudição do jornalista de cultura perdeu espaço para, digamos, uma espécie de profissionalização do jornalista, que passa a ter funções mais específicas e menos esse aspecto culturalista, que é necessário para fazer esse tipo de crítica. De outro lado, temos a crítica que vem da universidade. Essa crítica que a partir dos anos 70 se torna a mais forte, e passa a substituir a redação erudita, é especializada, feita por especialistas que escrevem com jargão ou dominam pequenas fatias da cultura e escrevem de uma maneira que só dialoga com poucos. Esse tipo de coisa também já aconteceu. Vários cadernos aproveitaram esse tipo de discussão e apenas um ou outro dos críticos provenientes de universidades tinham discurso de maior abrangência, maior cancha e capacidade interpretativa. E esses passaram a ocupar lugar nos jornais.
É uma discussão longa, mas, sim, ela perdeu espaço. Porque a crítica era importante no Brasil, em um primeiro momento, nas redações dos jornais. Não era feita por pessoas das universidades, mas por importantes eruditos que trabalhavam com cultura. Penso em Brito Broca, Alexandre Eulálio, Otto Maria Carpeaux, Mario Faustino, o próprio Antonio Candido... era uma enorme quantidade de gente estudiosa, culta, que frequentava artes e ocupava os lugares nos jornais. Isso, por um lado, se desmantelou: essa erudição do jornalista de cultura perdeu espaço para, digamos, uma espécie de profissionalização do jornalista, que passa a ter funções mais específicas e menos esse aspecto culturalista, que é necessário para fazer esse tipo de crítica. De outro lado, temos a crítica que vem da universidade. Essa crítica que a partir dos anos 70 se torna a mais forte, e passa a substituir a redação erudita, é especializada, feita por especialistas que escrevem com jargão ou dominam pequenas fatias da cultura e escrevem de uma maneira que só dialoga com poucos. Esse tipo de coisa também já aconteceu. Vários cadernos aproveitaram esse tipo de discussão e apenas um ou outro dos críticos provenientes de universidades tinham discurso de maior abrangência, maior cancha e capacidade interpretativa. E esses passaram a ocupar lugar nos jornais.
Há outros motivos?
No contexto do dilema de crise de produção, a tendência é que a própria literatura seja, de um lado, associada a uma produção de mercado, de valorização muito rápida, deblockbusters, e isso não precisa de crítica, a crítica não tem importância alguma para essa produção. De outro lado, esse tipo de literatura que se produz hoje - mais associado a pequenos grupos, a setores de determinada experiência, em que a literatura serve de testemunha de um tipo de vivência - é importante pelos direitos que elas reivindicam e não pelo valor estético que têm. E um crítico vai falar como sobre isso?
Pode dar um exemplo?Se há um escritor da periferia que discute a importância de qualquer valor que seja importante para esse grupo, como a solidariedade entre as pessoas para com uma minoria que vive ali abandonada pelo Estado, enfim, um crítico não vai dizer que, sobre essas histórias, o que mais vale é a qualidade estética, porque o que importa mais é a constituição de uma comunidade, de uma comunidade de leitores, de gente que se reúne em torno disso e passa a exigir direitos de outra ordem. Então o próprio crítico fica um pouco confuso no meio disso tudo. Quer dizer: o que ele faz? O que alguém que é treinado para falar sobre qualidade estética pode dizer sobre isso? Ou então, falando, por exemplo, de uma literatura da internet: boa parte é movida a textos feitos entre amigos. Um reforça o outro. São pequenos grupos que mais ou menos reforçam o seu gosto, a sua vontade, sua maneira de falar, de se expressar. Agora, o que se pode dizer sobre a vontade do outro de se expressar? É uma coisa que interessa aos amigos, mas tem muito pouco interesse de cumprir uma exigência estética.
No contexto do dilema de crise de produção, a tendência é que a própria literatura seja, de um lado, associada a uma produção de mercado, de valorização muito rápida, deblockbusters, e isso não precisa de crítica, a crítica não tem importância alguma para essa produção. De outro lado, esse tipo de literatura que se produz hoje - mais associado a pequenos grupos, a setores de determinada experiência, em que a literatura serve de testemunha de um tipo de vivência - é importante pelos direitos que elas reivindicam e não pelo valor estético que têm. E um crítico vai falar como sobre isso?
Pode dar um exemplo?Se há um escritor da periferia que discute a importância de qualquer valor que seja importante para esse grupo, como a solidariedade entre as pessoas para com uma minoria que vive ali abandonada pelo Estado, enfim, um crítico não vai dizer que, sobre essas histórias, o que mais vale é a qualidade estética, porque o que importa mais é a constituição de uma comunidade, de uma comunidade de leitores, de gente que se reúne em torno disso e passa a exigir direitos de outra ordem. Então o próprio crítico fica um pouco confuso no meio disso tudo. Quer dizer: o que ele faz? O que alguém que é treinado para falar sobre qualidade estética pode dizer sobre isso? Ou então, falando, por exemplo, de uma literatura da internet: boa parte é movida a textos feitos entre amigos. Um reforça o outro. São pequenos grupos que mais ou menos reforçam o seu gosto, a sua vontade, sua maneira de falar, de se expressar. Agora, o que se pode dizer sobre a vontade do outro de se expressar? É uma coisa que interessa aos amigos, mas tem muito pouco interesse de cumprir uma exigência estética.
Pode-se dizer então que hoje a crítica está mais próxima a resenhas de divulgação do que de análise?
Em jornal, sim. Na universidade, a crítica existe, mas é mais distanciada, de fôlego, que trabalha com material mais antigo. A crítica na imprensa praticamente inexiste, mas ainda há um pequeno espaço neles para resenhas, apesar de as resenhas serem muito curtas, espaços reduzidos e controlados por umas poucas editoras que ocupam boa parte desses lugares.
Em jornal, sim. Na universidade, a crítica existe, mas é mais distanciada, de fôlego, que trabalha com material mais antigo. A crítica na imprensa praticamente inexiste, mas ainda há um pequeno espaço neles para resenhas, apesar de as resenhas serem muito curtas, espaços reduzidos e controlados por umas poucas editoras que ocupam boa parte desses lugares.
Por que o Medida por Medida é no formato e-book?
Esse livro simplesmente reúne artigos meus - para falar como enxergo a publicação - mas não fui eu que o fiz. São textos, pequenas resenhas e palpites, que escrevi na minha coluna na revista Cult e quem teve a ideia de editar um livro com eles foi o Ronald Polito, um velho amigo meu, que foi professor na Universidade Federal de Ouro Preto.
Esse livro simplesmente reúne artigos meus - para falar como enxergo a publicação - mas não fui eu que o fiz. São textos, pequenas resenhas e palpites, que escrevi na minha coluna na revista Cult e quem teve a ideia de editar um livro com eles foi o Ronald Polito, um velho amigo meu, que foi professor na Universidade Federal de Ouro Preto.
Duas críticas do livro, positivas aos trabalhos analisados, são sobre obras dos escritores Rubens Figueiredo e Juliano Garcia Pessanha. Quais os pontos comuns entre esses autores?
Olha que interessante: você destacou dois autores que de fato, para mim, foram bem sucedidos. Não acho que são resultados ótimos de livros, mas são esforços interessantes, literaturas que apostam seriamente naquilo que fazem, procuram seu caminho. Eles não estão brincando de fazer literatura. E cada um realiza essa qualidade de fazer literatura seriamente de maneiras bem diferentes. No caso do Juliano, o que é mais interessante é uma espécie de cruzamento de gêneros que ele faz entre aquilo que tem uma perspectiva filosófica ou psicanalítica e a narrativa, que é todo tempo repensada. Ela se dá como acontecimento, mas ela é o tempo todo rebatida dentro de uma espécie de interpretação filosófica desses acontecimentos. Essa espécie de incorporação de discurso da natureza reflexiva dentro da narrativa é o que acho interessante no Juliano. Não que isso funcione sempre, mas ele não se entrega ao romanesco que é uma espécie de fórmula do século 19.
E no Rubens Figueiredo?
O que chama a atenção nele é uma coisa bem diferente. Ele se cola aos acontecimentos. São acontecimentos que estão muito perto, quase numa relação hiper-realista. No caso doPassageiro do Fim do Dia, é uma viagem de ônibus. Ele pega o ônibus em um lugar e vai até a periferia. No meio disso, há boatos de que haveria uma confusão, uma briga, ataque a ônibus, no final da linha. Os passageiros não sabem se chegam ou não a tempo ao seu destino. Ele investiga esse universo de classe média baixa ou pobre e tem um olhar muito atento para cada coisa. Ele descreve o caminho do ônibus. Essa atenção detalhista a esse universo de uma forma não romantizada, mas descritiva e atenta, é o que acho interessante.
O que chama a atenção nele é uma coisa bem diferente. Ele se cola aos acontecimentos. São acontecimentos que estão muito perto, quase numa relação hiper-realista. No caso doPassageiro do Fim do Dia, é uma viagem de ônibus. Ele pega o ônibus em um lugar e vai até a periferia. No meio disso, há boatos de que haveria uma confusão, uma briga, ataque a ônibus, no final da linha. Os passageiros não sabem se chegam ou não a tempo ao seu destino. Ele investiga esse universo de classe média baixa ou pobre e tem um olhar muito atento para cada coisa. Ele descreve o caminho do ônibus. Essa atenção detalhista a esse universo de uma forma não romantizada, mas descritiva e atenta, é o que acho interessante.
Quais autores, falando de todas as áreas e não apenas literatura, considera imperdíveis hoje?
Eu li muita literatura de toda época e em particular autores dos séculos 16 e 17. Há muitos autores excepcionais aí que são atuais e ainda podem ser lidos, como contraponto interessante e instigante em relação ao presente. Se você só lê contemporaneidade, matéria e tudo o que sai, você não tem distanciamento, um quadro fora daquilo que permita a você se posicionar criticamente. Leio muito os autores do período renascentista e barroco, do século 14 ao 17. Leio muito seguidamente Dante, Petrarca e Boccaccio, dou cursos sobre eles. Da literatura em língua portuguesa os dois que leio mais são Camões e Antonio Vieira [este último, objeto de seus estudos de doutorado], que têm enorme interesse ainda hoje. Li a literatura italiana do século 16 e a literatura contrarreformista em vários países e línguas. Mas, digamos, dos contemporâneos, gosto do começo do século 20, como Proust, Joyce, Beckett e Pirandello. E dos russos, como Dostoievski.
Eu li muita literatura de toda época e em particular autores dos séculos 16 e 17. Há muitos autores excepcionais aí que são atuais e ainda podem ser lidos, como contraponto interessante e instigante em relação ao presente. Se você só lê contemporaneidade, matéria e tudo o que sai, você não tem distanciamento, um quadro fora daquilo que permita a você se posicionar criticamente. Leio muito os autores do período renascentista e barroco, do século 14 ao 17. Leio muito seguidamente Dante, Petrarca e Boccaccio, dou cursos sobre eles. Da literatura em língua portuguesa os dois que leio mais são Camões e Antonio Vieira [este último, objeto de seus estudos de doutorado], que têm enorme interesse ainda hoje. Li a literatura italiana do século 16 e a literatura contrarreformista em vários países e línguas. Mas, digamos, dos contemporâneos, gosto do começo do século 20, como Proust, Joyce, Beckett e Pirandello. E dos russos, como Dostoievski.
E do século 21?
Em literatura não há nada que me impressione especificamente, nenhum autor que me chame a atenção. Uma das minhas últimas paixões literárias avassaladoras é da década de 60, porque gostava muito do Pasolini (1922-1975). Há autores que leio com atenção, mas nenhum é de literatura. Li o crítico de arte russo Boris Groys (1947-), tenho tudo dele e o acho extraordinário, de um pensamento muito renovador. Há vários críticos que leio mais seguidamente como o Richard Rorty (1931-2007), um americano que na verdade é filósofo pragmático. Gosto das reflexões, não do pensamento geral. Acho ótimo o italiano Alfonso Berardinelli (1943-) e espetacular o também italiano Mario Praz (1896-1982). Gosto desse tipo de crítica que domina não só as referências literárias, mas outras que têm um repertório mais amplo.
Em literatura não há nada que me impressione especificamente, nenhum autor que me chame a atenção. Uma das minhas últimas paixões literárias avassaladoras é da década de 60, porque gostava muito do Pasolini (1922-1975). Há autores que leio com atenção, mas nenhum é de literatura. Li o crítico de arte russo Boris Groys (1947-), tenho tudo dele e o acho extraordinário, de um pensamento muito renovador. Há vários críticos que leio mais seguidamente como o Richard Rorty (1931-2007), um americano que na verdade é filósofo pragmático. Gosto das reflexões, não do pensamento geral. Acho ótimo o italiano Alfonso Berardinelli (1943-) e espetacular o também italiano Mario Praz (1896-1982). Gosto desse tipo de crítica que domina não só as referências literárias, mas outras que têm um repertório mais amplo.
O senhor já disse que essas seriam obras de literatura disfarçadas...
Disse isso por me perguntar: por que será que emocionalmente fico muito mais afetado por um texto do Groys? Eu pensei: será que esse tipo de texto é uma nova máscara da literatura, uma espécie de semente de um novo caminho da literatura? Será que são novas formas em que a literatura começa a encontrar o seu lugar? Tenho me sentido mais afetivamente tocado, e não só intelectualmente, por esse tipo de obra que pensa com muita força e dramaticamente o próprio tempo presente e a crise em que nós estamos.
Disse isso por me perguntar: por que será que emocionalmente fico muito mais afetado por um texto do Groys? Eu pensei: será que esse tipo de texto é uma nova máscara da literatura, uma espécie de semente de um novo caminho da literatura? Será que são novas formas em que a literatura começa a encontrar o seu lugar? Tenho me sentido mais afetivamente tocado, e não só intelectualmente, por esse tipo de obra que pensa com muita força e dramaticamente o próprio tempo presente e a crise em que nós estamos.
Tem um texto preferido no livro?
Dos que escrevi para a Cult, tenho um que é sobre o Guimarães Rosa. Porque para mim ele remete a uma longa discussão do tempo em que eu era aluno de pós no comecinho dos anos 80. Eu fazia um curso com o Davi Arrigucci sobre o Guimarães Rosa e nós lemos o Grande Sertão: Veredas. Eu comecei a ver durante a leitura coisas que se observavam pouco, porque o interesse maior das pessoas quando liam o livro nesse curso era interpretar o que significava o amor entre Riobaldo e Diadorim antes de o Riobaldo saber que Diadorim era uma mulher. O foco era sempre essa questão interpretativa ou então o significado do sertão, do cangaço, para o Brasil. Mas a minha atenção começou a se voltar para outra coisa. Eu comecei a perceber que, depois que Diadorim se revelava mulher, havia uma enorme variedade de elementos que ficavam sem explicação. Enquanto ele era homem, o livro se encaminhava numa narrativa que se organizava de maneira verossímil, mas no momento que se descobre que ele é mulher, boa parte do livro não colava mais com essa parte. Era uma leitura bem literal que eu fazia, da construção do livro, e eu mostrei nesse artigo como os elementos ficavam misteriosos. O que parecia solução era o mistério e, digamos, como conclusão geral, o que eu digo é que a crítica trabalha com uma espécie de superinterpretação - qual o sentido, qual a intenção, qual a representação; a escrita vira alegoria de uma outra coisa. Assim, dá pouca atenção para a literalidade da construção narrativa. É isso o que eu tento resgatar para voltar à própria matéria narrativa do texto. Dos textos que escrevi, eu gostei mais desse, que tinha uma espécie de impulso teórico, talvez.
Essa ideia ficou guardada desde a época do curso?
Quando eu tive essa ideia na pós, não tive coragem de falar isso durante o curso. Eu não consegui, porque parecia que eu estava indo por um caminho muito fora do que todos estavam indo. Então eu fiz também uma interpretação. Tentei manter todos esses aspectos que não faziam sentido, mas eu interpretei a ausência de sentido, também joguei como interpretação. Como eu conhecia bastante a literatura do século 16, eu fiz uma interpretação a partir de um autor do século 16 sobre a história daquilo que não se pode saber. Eu senti medo na época, uma espécie de incapacidade de assumir aquilo que eu sentia, e fui guardando aquilo. Nunca me conformei de não ter resolvido o problema que eu via. Um dia, no ano passado, ao escrever a coluna da Cult, fiz uma espécie de releitura daquele momento do curso e mostrei que aquilo que eu tinha escrito no passado e que foi publicado era completamente equivocado; nunca foi o que eu quis dizer e que o que eu quis dizer era outra coisa. Era que havia necessidade de voltar à própria estrutura narrativa. Por isso que eu chamei de "Tese Idiota", que é uma tese que não procura entender propriamente, porque ela se concentra no próprio texto. Foi um retorno ao texto 23 anos depois.
O que o impediu de ter escrito o que pensava antes?
Eu achei que estava muito fora, que deveria ter algum erro naquilo, porque só eu via aquilo completamente desmontado. Não confiei suficientemente na minha intuição, porque todo mundo estava só falando do livro, interpretando, falando como se fosse uma obra-prima. Eu não coloquei em dúvida que era uma obra prima, não é isso o que fala o meu texto. Eu acho que é um livro extraordinário, mas não por essas razões que as pessoas dizem, inclusive porque eu vi que em vários outros livros do Guimarães há o mesmo processo - ainda não escrevi sobre isso, mas vou escrever. Há a determinação de uma coisa, o que eu chamo de teleologia - quer dizer, uma coisa que tem que acontecer e essa coisa acontece a despeito de qualquer circunstância, sem se encaixar nas circunstâncias. O caso de A Terceira Margem do Rio é um caso típico, é igualzinho: o cara recebe uma ordem de ir para o meio do rio e ficar lá. E ele vai. Quer dizer: não tem explicação, o que acontece não é explicado pela circunstância e nem explica a circunstância. Esse tipo de coisa foi o que eu quis mostrar. Por um lado, eu ajustei a conta comigo mesmo. Era algo que me deixava engasgado, porque eu não tive coragem de falar uma coisa que eu pensei. De outro lado, acho que é mesmo um texto que pode dar ideias para as pessoas, para quem é especialista, dar uma pista de outras abordagens.
Fonte: Revista da língua portuguesa