Resenha : A história do livro




Título: História da leitura no mundo ocidental –  2 vols.
Organizadores:Roger Chatier e Guglielmo Cavallo
Editora: Ática

Neste livro vários autores analisam a história da leitura através da evolução da escrita,da transformação das bibliotecas,da diagramação dos livros , das encadernações, do mundo editorial e da sociedade.Um  retrato de nós, leitores, em épocas distintas
Tentarei fazer um traçado geral das etapas por que passaram o livro e a leitura , sem dar conta das nuances e erudição com que os temas foram abordados por esses autores.
 A história da leitura pode ser resumida em 3 fases: leitura em voz alta, murmurada e silenciosa.
Na antigüidade a leitura era em voz alta.O texto escrito era usado mais como apoio da memória, não havia ainda separação entre as palavras ,nem sistema de sinais gráficos  que dessem ao texto um ritmo ou orientação de como ser lido.Esse processo era feito com a entonação da voz e às vezes no gestual de quem lia.A leitura era essencialmente um ato social, público.Também o número de pessoas alfabetizadas era pequeno, restrito às algumas camadas sociais da época.Mesmo os copistas muitas vezes recebiam uma educação bastante rudimentar.
O grande impulso à expansão da leitura veio com a substituição dos rolos de papiro pelo códice,de pergaminho, o livro preferido dos cristãos pelo seu formato, fácil de transportar, podia ser escrito nos dois lados da folha,o que o tornava mais econômico e possibilitava a reunião de vários textos, de rolos diferentes, num só volume.Os códices nos trazem talvez a 1° revolução da leitura, que passa a ser fragmentada, em páginas, em oposição aos rolos que davam uma visão continua do texto.Teremos  agora a leitura sussurrada, realizada nos mosteiros e incentivada como meditação pela igreja.A regra de S. Bento, ordem monástica do séc VI, tem um capítulo dedicado só à leitura.A escrita ainda não tem, no entanto, um sistema nítido de separação de palavras , daí ainda a necessidade de se ouvir o texto para poder compreendê-lo,mesmo que em voz  baixa.
Dos sécs.XII ao XIV o progresso da escrita se dá juntamente com o aumento da alfabetização. A leitura se torna mais ágil com a introdução de abreviações, pontuações e os recursos gráficos se uniformizam. Escrever passa a ser um trabalho intelectual, embora seja no séc. XV que o termo “escrever” passa a ser sinônimo de “compor”. A biblioteca deixa o mosteiro para integrar-se à sociedade através da Universidade. Estamos no período escolástico no qual os textos da antiguidade chegarão ao público através de compilações. A leitura integral destes textos, aliás, será resgatada mais tarde pelos humanistas. A leitura agora é silenciosa, essencialmente introspectiva e individual, depende menos da memória , que passa a ser usada  mais para apreender o sentido geral do enunciado que para decorá-lo. O leitor, isolado, não teme mais a pressão da sociedade, ele pode ler e comparar trechos de obras diferentes assim como pode comparar anotações de outras pessoas e suas opiniões.Com isso crescem as heresias.
A partir do séc.XIII a leitura se organiza , temos a elaboração dos catálogos,não mais como um inventário das  obras,mas como instrumento de localização dos livros na biblioteca, a ordem alfabética é usada pela 1° vez , surgem os índices de capítulos, os sumários e a letra maiúscula é usada para indicar a seqüência dos assuntos.A caligrafia se transforma e por volta de 1400 a letra cursiva, que vinha sendo usada até então de forma desordenada, é padronizada, facilitando a leitura.
A chegada dos tipos móveis, da imprensa, foi a 2° grande mudança dos livros que afetou sua circulação e seu formato. Várias cópias podiam se feitas de uma mesma obra sem ter que cada leitor copiá-la ou pagar para que  um copista o fizesse.Isso barateou o livro e aumentou as tiragens. O livro ganhou nova diagramação, sendo o texto agora impresso em colunas. Sua visualização passou ter relevância e a página de rosto ganhou destaque com desenhos mais elaborados.
 A industrialização do livro vem substituir o livro artesanal o que o torna mais impessoal.Para fugir à essa aparente frieza, o leitor buscará nas encadernações luxuosas o valor  afetivo e artístico perdido O próprio livro guardará marcas dessa personalização e de sua circulação através de ex libris, impressos ou desenhados,menções de compra ou doações.
Com a disseminação dos textos fez-se necessário também o estudo de como lê-los. Se na antiguidade a entonação e o gestual eram orientadores da leitura, na leitura silenciosa o escritor começa e se preocupar em como será lido. Surgem os métodos de leitura.
Um capítulo à parte mereceriam os humanistas que liam muito e vários livros ao mesmo tempo. Esses leitores deixaram marcas abundantes de suas leituras, nos trechos sublinhados e nas anotações feitas nas bordas,o que  permite ver suas reações aos textos, sua trajetória intelectual.Muitas dessas anotações eram estudos que seriam mais tarde publicados.Aliás,os ”comentários à obra” floresceram  neste período, em substituição aos antigos resumos feitos pelos escolásticos.
A leitura da bíblia, incentivada por Calvino e Lutero, trouxe nova mudança nos textos, que passaram a ser em língua nacional. Entretanto, esses textos refletem uma tradição oral ainda arraigada. O estilo predominante é o do discurso, dos sermões e diálogos, próprios da tradição oral. Também os panfletos, muito usado por Calvino para propagação da doutrina ,refletem essa leitura que se quer rápida e direta.O livro entra assim nas casas e no dia a dia das pessoas, embora a  leitura ainda seja feita  em voz alta pelo patriarca, mais por conta da pouca alfabetização da sociedade que por dificuldade em se compreender o texto.
O concilio de Trento, ao tentar reter o avanço da reforma protestante, estabelece um rígido controle dos livros, dos impressores e dos leitores. Qualquer livro para ser impresso precisava da autorização eclesiástica e os editores eram cadastrados pela igreja local. Como material  didático e oficial, a igreja lança o missal e o breviário romano.Em 1564 é finalizado o index ,pelo papa Pio IV, cuja 4° regra impõe a obrigatoriedade de uma autorização  dada pelo bispo de cada cidade para se ler a bíblia.
Somente no sec. XVIII a bíblia em língua nacional é autorizada pala igreja de Roma e não há mais menção à necessidade de autorização para se ler.
A chegada da burguesia questiona a autoridade da igreja em ditar-lhe sua leitura. A burguesia produz e consome, sua moral é diferente e, como classe social, necessita de identidade.O leitor burguês busca a leitura que seja útil à sociedade e a si como indivíduo.A leitura visa informação e prazer, há mais publicações sobre viagens , fábulas e romances familiares.Através do romance busca-se um maior contato com as emoções, com a fantasia, o que é visto pela igreja e pelos iluministas como ócio,luxo e tédio.O leitor se torna anônimo, os livros religiosos, antes predominantes, perdem espaço e a imprensa periódica é muito apreciada por essa nova classe social, ávida de informação.Nos termos de Chatier, a leitura “intensiva” dá lugar à leitura “extensiva”.Com o tempo o leitor consumidor se institucionaliza através das bibliotecas circulantes e das sociedades literárias. A leitura sai das bibliotecas para ser ao ar livre ou no âmbito doméstico, não mais como reunião familiar, porém individual.
As novas classes de leitores se tornam uma fonte de lucro para os editores, sempre temerosos do desaparecimento do livro. A mulher passa a ser um novo nicho a ser explorado e muito se publica para ela, ao mesmo tempo em que a imagem preconceituosa permanece e ela continua a ser vista como pouco afeita às coisas da inteligência, emocionalmente volúvel e vulnerável. Ema Bovary, de Flaubert, e Ana Karenina, de Tolstoi, são exemplos clássicos. A alfabetização em massa e o distanciamento da religião traz a demanda por livros pedagógicos leigos;são publicadas as cartilhas ilustradas e os livros infantis ganham espaço com os contos de Grim ,que são  adaptações feitas a partir do folclore camponês.
A crescente industrialização aumenta a distância entre trabalho e lazer. No séc XIX os livros chegam  à classe média baixa que, no entanto, se sente constrangida em ler, posto que a leitura ainda é vista como ócio. As bibliotecas circulantes se multiplicam e têm, no início, caráter político de controle social, quando  dispões para leitura obras com conteúdo moralizantes e de valores sociais aceitáveis.Mas o público trabalhador, de pouca escolaridade, muitas vezes autodidata, forja seu próprio gosto.Cresce a demanda por obras autobiográficas, escritas pelos próprios  trabalhadores, com as quais  possam se identificar.Gorki é um exemplo dessa época.                                                                                                                                                                                                                           Os cânones da boa  literatura  sempre foram contestados ao longo da história e substituídos por outros.Hoje o que temos,na definição de  Chatier, é um público desorganizado, que lê  em movimento – televisão, computador , etc.- e fragmentado, sem uma visão da totalidade da obra.Com o recorta e cola da internet ,o leitor cria um texto próprio, sem muita relação com o original.Leitor e escritor aqui se fundem de maneira pouco clara.  Grosso modo, diríamos que hoje o leitor é mais consumidor que leitor na forma tradicional do termo. E muito mais visual também.



Roger Chatier é  coordenador de pesquisas na École des Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris.
Guglielmo Cavallo é professor de paleologia grega na Universidade La Sapienza, em Roma