A nova era das gramáticas
Com compreensão mais profunda dos fenômenos linguísticos, lançamentos podem ajudar a mudar o ensino do idioma
Josué Machado
Trechos da exposição Menas, do Museu da Língua, que teve cocuradoria de Ataliba de Castilho, autor da nova Gramática do Português Brasileiro: flagrante do idioma no cotidiano
Durante muito tempo, vários linguistas brasileiros se limitaram a criticar o ensino tradicionalista, lusófono e normativo da língua portuguesa das escolas. Era, ou é, o ensino baseado em gramáticas que tratam só da língua padrão escrita, muitas vezes com exemplos artificiais pinçados de escritores do passado, preocupadas em apontar o certo e o errado. De dez anos para cá, especialistas começaram a - e outros se preparam para - "botar a mão na massa".
Uma onda de lançamentos editoriais tem trazido às prateleiras do país gramáticas baseadas em estudos científicos consistentes. Eles se fundamentaram em projetos individuais ou coletivos, e produziram antes gramáticas descritivas e explicativas do que normativas. Surgiram então os trabalhos inovadores de Maria Helena de Moura Neves, professora da Unesp de Araraquara e da Universidade Presbiteriana do Mackenzie (SP); de José Carlos Azeredo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; de Mário Perini, da Universidade Federal de Minas Gerais; e de Ataliba de Castilho, professor titular aposentado da USP.
Azeredo busca fundamentação científica para análises gramaticais
Mercado eclético
Esses autores são responsáveis por obras que movimentaram o mercado editorial este ano, um mercado eclético, capaz de absorver trabalhos modernos, embora seguidores da linha normativa (José Augusto Carvalho, da Universidade Federal do Espírito Santo, vai relançar sua Gramática Superior da Língua Portuguesa), e até ousadias como a Gramática do Brasileiro: Uma Nova Forma de Entender a Nossa Língua, de Celso Ferrarezi Junior e Iara Maria Teles.
Maria Helena de Moura Neves, cujo Lições de Gramática de Uso, de 1.300 páginas, será lançado até dezembro, é uma precursora; sua Gramática de Usos do Português, a ser reeditada em breve, foi publicada em 2000. As duas gramáticas se estruturam numa base de dados de 70 milhões de ocorrências, guardada no Centro de Estudos Lexicográficos da Unesp de Araraquara (SP). A nova sairá pela editora Contexto.
- Nas Lições mantenho minhas propostas sobre o modo de tratamento da gramática: a língua em função, em uso. O trabalho com a língua em uso deve constituir um instrumento de reflexão do aluno junto com o professor sobre o funcionamento linguístico. Isso nada mais é do que a gramática. A reflexão sobre textos deve levar à compreensão da gramática da língua, das classes e funções, das categorias e dos processos que se desenvolvem na criação dos sentidos e dos efeitos nos textos.
Maria Helena diz respeitar as obras tradicionais, mas acentua sua discordância com a gramática que se centra em definições.
- Elas teriam de ser exaustivas, senão não valeriam a pena. A tradição gramatical chega a dar definições que nem são verdadeiras: diz que adjetivo indica qualidade; onde está a qualidade em "perícia médica"? Definição é receita; não deve ser dada; definição deve ser ponto de chegada, não de saída. Se houver definição, a pessoa só deve chegar a ela quando já sabe tudo daquilo que define. Há duas chagas nas salas de aula: a fé nas definições de categorias gramaticais e a ânsia normativa, que limita o conhecimento sobre a vida da linguagem - pondera a professora.
Um "espírito de época" parece permear a nova era das gramáticas. O professor José Carlos Azeredo, da UFRJ, afirma que três aspectos inspiraram a publicação de sua Gramática Houaiss da Língua Portuguesa (2008): o corpus, o enfoque teórico-conceitual e o método expositivo.
Aspectos
Ele explica que o corpus que adotou tem perfil diferente do tradicional, exclusivamente literário; os exemplos são de autores brasileiros, jornalistas, cronistas, ensaístas, ficcionistas, poetas; há também o enfoque, que trata, nos primeiros capítulos, do conceito de língua como instrumento de relações interpessoais, porque o usuário se orienta pela identidade sociocultural do ouvinte ou leitor; e quanto ao método, procurou adotar o tom da exposição oral acessível ao leitor médio para que se sinta estimulado a tirar as próprias conclusões ao observar os fatos do idioma. O professor vê semelhanças entre sua Gramática Houaiss e a Gramática de usos, de Maria Helena.
- A dela foi a primeira análise moderna e abrangente dos aspectos mórficos e sintáticos do padrão escrito apurado em corpus de uso real não necessariamente literário. Uma descrição minuciosa, com perfil de autêntica gramática científica.
O professor da UFRJ considera que a gramática de Maria Helena tem o mesmo embasamento científico do trabalho de Ataliba de Castilho, mas destaca a vantagem de ela não ter perdido de vista a comparação dos usos correntes que registra com os usos considerados padrão, justamente por ser uma gramática de usos. Ao lembrar Castilho, lembra também Mário Perini, da UFMG.
- Minha geração deve muito a esses dois linguistas, que desfrutam de elevado conceito na universidade brasileira pela produção extensa e constante e pelo empenho incansável na renovação e na qualificação do trabalho dos professores de português.
Mesmo assim, Azeredo vê mais diferenças do que semelhanças no conteúdo e na proposta entre os dois.
- Castilho toma exemplos ao corpus do projeto da Norma Urbana Culta (Nurc), pelo nível de complexidade conceitual e pela metodologia de análise. E aborda com mais erudição os fatos da língua, atento à articulação dos aspectos gramatical, semântico e discursivo. Perini é mais didático, está preocupado com o recorte dos temas gramaticais e a abordagem crítica de cada, considerando as lacunas e limitações da análise tradicional.
Por isso, o professor diz que a quase coincidência de título dá pista falsa sobre o perfil das obras que Perini (Gramática do Português Brasileiro) e Castilho (Nova Gramática do Português Brasileiro) acabam de publicar.
Perini, de texto muito claro e didático, é duro com as gramáticas que critica.
- A gramática tradicional não se atualizou nos últimos 70, 80, 90 anos, e como resultado reflete uma situação antiquada; o pior é que a confecção delas tem sido em grande parte trabalho de amadores, mal formados em linguística. Tive de adotar uma perspectiva teórica que, embora familiar aos linguistas, é novidade para o estudioso e professor de gramática - diz.
Semelhanças
Perini concorda com a maioria dos especialistas sobre o trabalho inovador de Maria Helena.
- Dos trabalhos que focalizam a língua escrita, o de Moura Neves é notável porque expõe o que de fato ocorre nos textos: ela se baseia em um grande corpus de textos jornalísticos e literários recentes, ao contrário das outras gramáticas que, por um lado, descrevem muitas formas já em desuso, e por outro se concentram em considerações de ordem normativa, não o que ocorre, mas o que deveria ocorrer - avalia.
Observa que a obra de Azeredo se assemelha à de Maria Helena, mas ambos diferem dos trabalhos pioneiros de descrição da língua falada, como o encabeçado por Ataliba de Castilho e o dele próprio, Perini. Em 2002, Perini publicou a primeira gramática com atenção detalhada ao português falado do Brasil, Modern Portuguese (Yale University Press). Agora, enumera as diferenças entre sua obra recente e outras.
- Primeiro, é uma gramática descritiva, descreve como a língua é, não como deveria ser. Não há nela afirmações como "essa forma é incorreta" ou "é melhor falar assim"; eu me limito a registrar os usos, aceitos pela comunidade linguística, sem atenção a proibições e preferências dos gramáticos. Em segundo lugar, descrevo a língua falada; assim, frases como "Me dá ele aí", "Eu fui no cinema" são levadas em conta, porque é assim que nosso povo fala. Terceiro, evitei os muitíssimos problemas de teoria que são uma praga do ensino gramatical, e fazem dele uma coisa difícil e desagradável - descreve Perini.
Maria Helena, que lança sua segunda gramática até o fim do ano: estudo gramatical da escrita deve basear-se na língua em uso e evitar definições
Teoria
A Gramática do Português Brasileiro (Contexto), de Castilho, também se inclui com destaque entre os fortes candidatos a novos materiais de ensino. Sua primeira inspiração veio da conclusão do Projeto de Gramática do Português Falado, que coordena desde 1988. A partir de 2000, sua equipe passou a consolidar os resultados numa série de oito volumes, da editora da Unicamp.
O professor da USP é um ativo colaborador do Museu da Língua Portuguesa, no qual foi um dos curadores da exposição Menas, que entre março e julho evidenciou muitos dos princípios defendidos agora em sua gramática, e destaca os pontos em que ela difere das obras tradicionais.
- Em primeiro lugar, ela dispõe de uma orientação teórica que desenvolvo desde 1998; notei que estávamos mais centrados na identificação de processos linguísticos do que na descrição costumeira de produtos, empalhados e classificados; em segundo lugar, não está fundamentada na língua literária, e sim no português corrente, falado e escrito; a literatura nunca foi destinada a produzir exemplos gramaticais, porque empurra as línguas a seus limites máximos, afastando-se das expressões do dia a dia; em terceiro, começa pelo texto, e daí caminha para a sentença, que é parte do texto, não tem autonomia, e depois para a palavra; por fim, estimula os leitores a desenvolverem pesquisas por eles mesmos.
Também distante da linha tradicionalista, embora com enfoque diferente de modelos teóricos europeus ou norte-americanos, é a Gramática do Brasileiro - Uma Nova Forma de Entender a Nossa Língua (Globo), de Celso Ferrarezi Junior e Iara Maria Teles. Ferrarezi conta que teve a ideia de fazer "uma descrição desvinculada das tradições históricas das gramáticas normativas e compêndios filológicos".
- Eu queria alguma coisa diferente da abordagem estrutural típica que se faz nas gramáticas descritivas. Creio que temos de compreender como se usa uma língua para poder compreender por que uma estrutura qualquer foi criada e não o contrário - explica.
Indígena
O autor teve a ajuda de Iara Teles na concepção da gramática, que em parte se inspirou no estudo de línguas indígenas. Tal estudo ignora os fundamentos históricos e trata da língua em ação no momento. Foi o que fizeram os autores para resumir o estudo da língua brasileira a cinco classes de palavras, em vez de dez; consideraram quatro as conjugações verbais, não três; e registraram só dois gêneros de nomes em lugar de cinco. Ele diz que os acadêmicos "caíram de pau" nas ideias expostas por eles.
- O que interessa é que marcamos uma nova fase nessa coisa chamada "gramática" no Brasil - avalia.
Iniciativas como a da dupla Ferrarezi-Teles estão longe de obter unanimidade. José Augusto Carvalho, da UFES, é categórico.
- Quem pretende substituir a norma culta tradicional pela norma brasileira está confundindo valores, padrões ideais de linguagem com padrões reais de linguagem - critica.
O professor classifica como normativa sua Gramática Superior, de 2008.
- Eu a escrevi para ajudar os universitários na solução de problemas, coisa que não encontrarão nas gramáticas tradicionais existentes. As de usos ou as do português do Brasil são dialetais, descritivas, ainda que contenham tendência lusófoba - afirma.
Quanto à acusação de autores tradicionais de que a linguística complica demais a análise dos fatos da língua, Perini diz que, de fato, sob certos aspectos, a análise elaborada pelos linguistas é mais complexa.
- Isso vem do fato óbvio de que a estrutura da língua é imensamente complexa. Se os fatos são complexos, não é possível descrevê-los de maneira simples. Por outro lado, a complexidade pode ser estudada de maneira coerente e sistemática, portanto compreensível, e esse é um ponto em que a gramática tradicional fracassa. Ela é cheia de incoerências. Define, por exemplo, o sujeito como "O termo do qual se declara alguma coisa", e diz que o sujeito de "Você trabalha na editora?" é "você". Mas a frase não declara nada, pois é uma pergunta. Assim, ou "você" não é o sujeito aí ou então a definição de sujeito está errada.
Com o avanço das pesquisas linguísticas no país, nunca se teve tanto fundamento teórico e demonstrações empíricas para fazer afirmações sobre os fatos gramaticais. Os lançamentos recentes da nova geração de gramáticos deixam o brasileiro mais próximo dessas reflexões de ponta sobre a linguagem brasileira.
Um olhar sobre a tradição
Professores e gramáticos traçam paralelos entre os projetos da nova leva de gramáticas
A nova geração de gramáticos faz um balanço crítico sem deixar de prestar tributo à tradição gramatical. José Carlos Azeredo, da UFRJ, diz que gramáticas inspiradas em conceitos modernos, no respectivo tempo, foram produzidas em diversas épocas.
Considera modernas em seu tempo a de Julio Ribeiro (1881), a de Maximino Maciel (1894), a de Said Ali (1927).
- A de Evanildo Bechara renovou a descrição gramatical com conceitos tomados à linguística estrutural; a de Celso Cunha acolheu exemplos de autores contemporâneos, seguindo os passos de seu mestre Sousa da Silveira. Celso Pedro Luft foi sensível ao espírito renovador da ciência da linguagem dos anos 60 e 70 e abriu espaço a novos conceitos - estima.
O professor lembra que as obras editadas desde o fim do século 19 eram em geral escolares e normativas em grau variável.
- Iam do moderado, como as de Said Ali e Mário Pereira de Sousa Lima, ao mais radical e autoritário, como Gramática Metódica, de Napoleão Mendes de Almeida - avalia.
Mário Perini, da UFMG, realça o que considera tentativas de fuga à tradição nos gramáticos de outras gerações.
- Alguns, como José Rebouças Macambira e Luft, procuraram uma análise atualizada.
Discordo de muita coisa deles, mas procuraram pensar e não copiar a tradição. Nos anos 20 e 30 houve trabalhos importantes, à época atualizados, mas hoje ultrapassados, como os de Said Ali, José Oiticica e Amadeu Amaral.
Ataliba de Castilho é mais condescendente na avaliação, mas indica falta de orientação teórica, que unifique explicações; ausência de pesquisas de dados e excesso de repetição de temas. Considera limitantes a obediência à Norma Gramatical Brasileira e o "estilo autossuficiente" da maioria, "como se toda a língua estivesse contida na gramática". Diz, no entanto, que Luft, Cunha e Bechara e, antes deles, Said Ali, estão entre o ensino tradicional e o moderno. Já José Augusto Carvalho, da UFES, é mais pontual na crítica.
- O que há de pior nas gramáticas tradicionais é a citação de escritores como abono de regras. A eles compete subverter a sintaxe, escrever diferentemente e não como os outros. Não foi a linguagem deles que sedimentou a norma culta, mas a jurídica e, depois, a dos cronistas, como Fernão Lopes ou Zurara - explica.
Considera Manoel P. Ribeiro o melhor dos atuais gramáticos, elogia alguns autores e critica outros.
- As gramáticas de Celso Cunha e Lindley Cintra, de Adriano da Gama Kury, de Bechara e outros são boas obras de consulta, mas não acompanham os avanços linguísticos. Luft adaptou-se a esquemas da teoria gerativo-transformacional, mas ficou só nos esquemas, aliás já ultrapassados graças à teoria da regência e ligação, do Chomsky; não me parece bom gramático. Há imprecisões doutrinárias em sua gramática, sobretudo em fonologia: analisa um arquifonema como consoante, quando ele é classe de fonemas, assim como o fonema é classe de sons.
Ante queixas de que alunos saem da escola sem se comunicar de modo aceitável, Perini responsabiliza a falta de teoria coerente da gramática tradicional.
- Com uma gramática coerente e adequada aos fatos da língua, pode-se elaborar metodologia de ensino que considere a gramática uma disciplina científica, e não instrumento de aprendizagem da língua padrão, o que ela não é.
Castilho alerta que uma gramática não resolve a insuficiência do ensino.
- Educação envolve muitos fatores: ambiente familiar e escolar, materiais de ensino, interesse de alunos, etc. As gramáticas contribuem com um dos elementos para a melhoria do ensino.
Carvalho discorda.
- A culpa é do bombardeio audiovisual. O que importa é leitura. Quem não lê não amadurece ideias, e quem não tem ideias não tem o que dizer. Não tendo o que dizer não escreve.
Os tempos mudam, mas gramáticos continuam discordando um do outro.
Fonte: Revista da lingua portuguesa