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Jorge de Sena - dica de releitura

Jorge de Senapor Jorge Fazenda Lourenço
Jorge de Sena - San Diego, 1972



A sua infância de filho único é marcada pelas expectativas que o pai, comandante da marinha mercante, alimenta para ele como futuro oficial da Armada, em confronto com a educação musical que a mãe procura proporcionar-lhe. Em setembro de 1937 ingressa na Escola Naval como primeir

Jorge de Sena no cadete do “Curso do Condestável”, mas vicissitudes diversas da viagem de instrução no navio-escola Sagres ditam a sua exclusão da Marinha em março de 1938. Parte importante destas vicissitudes tem que ver com o endurecimento das normas que regem a instrução dos cadetes, em consonância com a fascização do Estado Novo por ocasião da Guerra Civil de Espanha. A passagem pela Armada no preciso momento da luta pela liberdade em Espanha constitui uma experiência traumática da sua adolescência que será matéria de diversos poemas e ficções, como “A Grã-Canária” e, no caso da Guerra Civil, Sinais de fogo. Jorge de Sena, que começara a escrever em 1936, estreando-se em 1942 com Perseguição, acaba por se licenciar em Engenharia Civil (1944) pela Universidade do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas de 1948 a 1959, ano em que se exila no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que está envolvido. A mudança para o Brasil permite-lhe uma reconversão profissional que vai ao encontro da sua vocação, dedicando-se ao ensino da literatura, acabando por se doutorar em Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (São Paulo), em 1964, obtendo também o diploma de Livre-Docência, para o que teve que naturalizar-se brasileiro (1963).

Os anos de Brasil (1959-65), os primeiros vividos, como adulto, em liberdade, são talvez o seu período mais criativo: completa a sequência de poemas sobre obras de arte visual,Metamorfoses (uma das obras que mais influência teve na poesia portuguesa), escreve os experimentais Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena, as metamorfoses de Arte de música e a novela O físico prodigioso, inicia o romance Sinais de fogo, investiga e publica sobre Luís de Camões e o Maneirismo, trabalha na edição do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, retoma a escrita para o teatro, etc. A alteração da situação democrática no Brasil, com o golpe militar de 1964, faz temer um regresso ao passado, quer em termos políticos quer em termos de dificuldades económicas, mas em 1965 surge a oportunidade de se mudar para os Estados Unidos, com Mécia de Sena e os seus agora nove filhos. Em outubro desse ano passa a integrar o corpo docente da University of Wisconsin, Madison, onde é nomeado professor catedrático efetivo (1967), transitando, em 1970, para a University of California, Santa Barbara (UCSB). Durante a sua permanência na UCSB, até ao final da vida, ocupa os cargos de diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa (interdepartamental) de Literatura Comparada. Foi ainda membro da Hispanic Society of America, da Modern Languages Association of America e da Renaissance Society of America.

A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov).

A criação poética de Jorge de Sena foi desde cedo acompanhada por uma intensa atividade intelectual e cultural, como conferencista, como crítico de teatro e de literatura, em diversos jornais e revistas, como comentador de cinema, nas “Terças-feiras Clássicas” do Jardim Universitário de Belas-Artes, no cinema Tivoli, como diretor de publicações, com destaque para os Cadernos de Poesia, como coordenador editorial, na revista Mundo Literário, como consultor literário, na Edição “Livros do Brasil” Lisboa ou na Editora Agir (Rio de Janeiro), tendo sido ainda cofundador de um grupo de teatro, “Os Companheiros do Páteo das Comédias”, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónicoRomance Policial (Rádio Clube Português, Lisboa), adaptando contos de Chesterton, Hammett, Maupassant, Poe e outros.

A intervenção do intelectual nos domínios da cultura ganha novos horizontes com a atividade de docente e investigador universitário no Brasil, onde reforça também a sua ação cívica como opositor ao Estado Novo. É cofundador da Unidade Democrática Portuguesa, de cuja direção se demite em 1961, e integra o conselho de redação do jornal Portugal Democrático, até 1962, participando ainda em atividades do Centro Republicano Português, de São Paulo. Uma vez nos Estados Unidos, a atividade cultural de Jorge de Sena fica restringida aos círculos académicos e da emigração (no período californiano, desempenha um importante papel no esclarecimento das comunidades portuguesas sobre o 25 de Abril de 1974), apenas compensada por uma enorme e rica correspondência com outros escritores e intelectuais portugueses e brasileiros, e pelas suas viagens de trabalho à Europa e, em 1972, a Moçambique e Angola, falando de Camões, no IV Centenário de Os Lusíadas.

É com toda esta vasta experiência, longamente marcada pelo exílio, que Jorge de Sena vai construindo a sua obra. Daí que ele sempre tenha entendido a sua poesia (o seu teatro, a sua ficção) como uma forma de dar testemunho de si mesmo e das suas circunstâncias, sem com isso menosprezar, antes pelo contrário, o trabalho de organização estética das emoções e dos sentimentos, ancorados na observação, na meditação e na rememoração de uma experiência de mundo concreta, no plano individual e coletivo. E dessa experiência fazem parte as visões de mundo que as obras de arte (literária, visual, musical) vão cristalizando, codificando, no decurso da história humana, entendida esta como uma peregrinação secular. O que, por sua vez, faz dessas obras de arte (dessas metamorfoses) objeto de uma experiência poeticamente meditada. Assim, a poesia (a obra) de Jorge de Sena, em que a ética e a estética se confundem, e em que o lirismo se mescla com um forte pendor especulativo e narrativo, deve ser lida, nas suas palavras, como uma “meditação sobre o destino humano e sobre o próprio facto de criar linguagem”.

Como possível e breve introdução a Jorge de Sena, excluindo de antemão a crítica, a história e o ensaio, bem como poemas e contos individuais, proponho aqui sete títulos, exiguamente comentados: As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (António, rei) (1951), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979).

As evidências, um “poema em vinte e um sonetos” escrito entre fevereiro e abril de 1954, é a sua primeira grande sequência, forma que favorece uma espécie de pressão associativa, permitindo a configuração de um enredo de temas e motivos, aqui de natureza ético-política e teológico-divina, que, sob um fundo de erotismo, cria a ilusão narrativa de um “novo génesis”, de um presente caótico que precede um novo advento dos deuses, deuses esses que restabeleceriam o reino da humana divindade. Tema este que está na base de obras como MetamorfosesO físico prodigioso ou a sequência Sobre esta praia… Oito meditações à beira do Pacífico (1977), que é, de algum modo, a verificação da impossibilidade desse advento.

Metamorfoses, seguidas de Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena (o título completo da coletânea), é também uma sequência de poemas, no caso motivada pela meditação sucessiva de objetos de arte visual (pintura, escultura, arquitetura), cuja ordenação, no volume, segue um critério cronológico dos referentes, assim se encenando um percurso épico da humanidade, mediado pela arte, pautado pela reflexão sobre a condição humana, a recusa da morte pela criação estética e a possibilidade de recuperação, em termos simbólicos, daquele “tudo / o que de deuses palpita e ressuscita em nós”, do poema “Artemidoro”.

O físico prodigioso – primeiro incluído em Novas andanças do demónio (1966) – é a possibilidade alegórica dessa humana divindade. A divisão simbólica em doze capítulos (seis de ascensão e seis de queda), a ficção medieval, a ambiguidade do nome (médico, corpo), o jogo de identidades entre as personagens (cavaleiro, diabo, Senhora, donzelas, frades), as alusões a mitos clássicos (Adónis, Bacantes) e ritos tradicionais, as referências cristológicas e pagãs, os códigos do amor cortês e do amor místico, tudo se congrega numa sagração do amor e da liberdade, da vida para além da morte, da redenção da condição humana nas metamorfoses de um corpo glorioso.

Peregrinatio ad loca infecta é considerado pelo poeta como um “esparso diário” dos seus exílios americanos, mas abrange também o lugar de exílio que lhe foi a pátria portuguesa. A obra está dividida em quatro blocos espacio-temporais que correspondem às quatro estações da sua peregrinação existencial: Portugal (1950-59), Brasil (1959-65), Estados Unidos da América (1965-69) e Notas de um Regresso à Europa (1968-69). Esta espiral dos tempos e espaços da biografia dá uma visão do modo como o eu biográfico possui uma historicidade que se constrói como errância e destino, como peregrinação pelos lugares inacabados ou imperfeitos do mundo que lhe foi dado viver.

A tragédia em verso O Indesejado é, a esta distância, uma premonição dessa errância e desse destino de mundo, da perspetiva de um reexame da identidade nacional, em rutura declarada com o mito do sebastianismo, a que se sobrepõe a situação existencial de um exilado no interior do seu próprio país, quer no plano político da História (António, prior do Crato), quer no plano das condições políticas do momento de escrita da peça (1944-45). O poeta fala a propósito de “tragédias sobrepostas”, a menor das quais não terá sido aquele momento traumático da sua passagem pela marinha de guerra.

Este episódio biográfico, transposto parcialmente para o conto “A Grã-Canária”, de Os Grão-Capitães, recorda este entrelaçar entre a existência do poeta e a história pátria. Estes “contos cruéis”, diz Jorge de Sena, “devem ser lidos como crónica amarga e violenta dessa era de decomposição do mundo ocidental e desse tempo de uma tirania que castrava Portugal”. Nesta “sequência de contos”, é uma vez mais a matéria biográfica que serve de enquadramento ao testemunho duma época. A obra estrutura-se segundo uma cronologia das ações narrativas, de 1928 a 1958, localizadas no espaço, independentemente da ordem por que foram escritos (a exemplo de Metamorfoses e Arte de música), com exceção para o conto citado.

Nesta mesma linha de “corresponsabilidade do tempo e nossa” se situa o romance Sinais de fogo, parte de um ciclo romanesco que pretendia “cobrir, através das experiências de um narrador, a vida portuguesa desde 1936 a 1959”. Nesta narrativa, centrada no verão de 1936, a eclosão da Guerra Civil de Espanha é o acontecimento que, como observou Mécia de Sena, catalisa “o despertar do protagonista para a realidade política e social, para o amor e até para o acto da criação poética”. Este romance de formação (ou Bildungsroman), seja qual for a relação entre o Jorge protagonista e o Jorge autor, é a obra-prima de um poeta que nos dá a ver o tempo e o modo de fazer-se um poeta.

resenha: libros y publico en el mundo antiguo




Quando pensamos em livros, rapidamente nos vêm à mente folhas impressas, unidas entre si e com uma capa, brochura ou capa dura, e quase podemos sentir o cheiro da tinta no papel recém saído das tipografias.Quando pensamos em livro, logo nos lembramos de Gutenberg, sua famosa bíblia e ainda hoje chamamos de incunábulos ( de cuna,berço,origem) os livros impressos até o ano de 1.500.Nada mais errôneo, pois o livro nasceu na antiguidade, nos códices,das mãos de seus autores,leitores e copistas.Na realidade os primeiros impressos após o invento dos tipos móveis foram edições de obras desses período, muito pouco era novidade editorial,como hoje na internet,com o computador, a maioria do que se lê são obras em papel que foram digitalizadas, ou seja,mais  uma mudança de suporte e da forma de se ler, e menos no conteúdo.
Neste livro Guglielmo, juntamente com Tönnes Kleberg e Eric Turner, reconstroem a trajetória do livro na antiguidade, a partir de fragmentos de textos, relatos de autores, cartas, anotações e dos próprios códices e rolos, enquanto objetos.Um maravilhoso e minucioso trabalho de arqueologia do livro, do material escrito e da própria escrita.As transformações foram poucas, se consideramos o tempo transcorrido, mas do ponto de vista estrutural e de conteúdo foram consideráveis.Neste livro veremos também como muitos dos problemas com que hoje nos deparamos não são, em absoluto, novidades e acompanham os livros desde o seu nascimento.
 A 1° grande transformação está  na escrita que altera a  relação do escritor com o texto,o qual passa a ser dirigido a uma pessoa ausente.Não há mais o contato pessoal entre público e autor como nas peças teatrais e discursos orais.Pensamos aqui no escritor como proprietário intelectual da obra, quem a criava, posto que o livro manuscrito podia ser copiado pelo próprio leitor, ou por escribas, portanto escritor não era apenas quem escrevia, fisicamente, mas quem criava, o autor da obra. Este aspecto é importante na medida em que essa definição de escritor dará um bom debate sobre direitos autorais, principalmente quando o livro passa a ser impresso, com maior número de exemplares em circulação.Da mesma forma  que na antiguidade escrever não é necessariamente sinônimo de autoria, o texto escrito para ter sua importância precisa ser publicado, ou seja, estar à disposição de um público.
 Guglielmo nos conta que já havia referência na Atenas do séc V aC  de um comércio livreiro relativamente intenso,mas ainda não havia referência à figura do editor.Em geral era o próprio autor quem revisava e comercializava sua obra.Só mais tarde  surge o editor, ou a pessoa que assume o risco de  comercializar as obras após o processo de compra dos originais,cópias, revisão e correção dos erros - bastante comuns aliás, posto que a maioria dos copistas eram escravos treinados para essa função,com pouca instrução, além de ser comum haver uma pessoa que ditasse o texto para vários copistas,de forma a aumentar o número de exemplares, com conseqüente aumento de erros.O editor, que muitas vezes era também livreiro de pequeno porte, passa então a ser o proprietário da obra,enquanto o autor recebia por original cedido e não por exemplar editado ou vendido.O interesse do autor em ter sua obra comercializada através de um editor não era financeiro, mas o de se assegurar que seu trabalho tivesse o mínimo de erros e evitar adulteração em seus textos, ou como diríamos hoje, as cópias piratas.
As bibliotecas, no sentido que damos hoje à palavra, e o comércio livreiro se complementavam.As bibliotecas tinham como missão guardar obras que se destinavam a pesquisas, e dependiam dos livreiros para aumento de seu acervo, embora muitas cópias fossem feitas em seus próprios escritórios, inclusive com comentários científicos. O comércio livreiro por sua vez dependia das bibliotecas para ampliar seu público e não ficar restrito a um mercado de consumo imediato.Sempre é bom lembrar que as bibliotecas, além de serem um local de pesquisas, eram ponto de encontro de estudiosos.
A 2° transformação está na função da escrita, já bastante difundida, com o texto sendo escrito para ser primeiro memorizado e só depois lido, assumindo assim o lugar da oralidade, sem no entanto substitui-la.
No aspecto formal, estão as palavras que nesta época já são escritas da esquerda para direita, mas ainda totalmente unidas, só mais tarde passariam a ter um sinal gráfico que as dividiria, não em sílabas, mas muitas vezes apenas para indicar uma pausa de leitura ou para diferenciar falas de personagens,no caso de peças teatrais.Temos aqui a 1° fragmentação do texto, a qual materializar-se-á nos códices, quando o rolo(escrita continua)será divido em páginas,e também o 1° passo necessário para a futura leitura silenciosa, visual.As várias formas de caligrafia também marcarão os períodos, em especial com a chegada dos códices.
 A 3° revolução dos livros foi a chegada dos códices,nossos atuais livros que, grosso modo, permanecem até hoje com o mesmo formato.Os primeiros códices eram voltados para um público que não tivesse muita cultura, com poder aquisitivo mediano e caracterizou uma ruptura com a cultura dos rolos, na forma e no conteúdo, o que significava uma ruptura com a cultura clássica.Podemos dizer que o códice é fundamentalmente cristão.Os 1° textos eram na maioria textos de divulgação da doutrina cristã,ou técnicos de baixo valor literário e constituídos por materiais de baixa qualidade.O formato desses códices era cadernos com número variado de folhas costuradas, com numeração das páginas na margem direita superior, como atualmente, predominando o formato retangular com altura maior que a largura e até o séc III e IV dC com as fibras do papiro na vertical, posteriormente na horizontal,e margens laterais grandes que serviam para os leitores escreverem  -o que era  impossível com os rolos que  não tinham espaço em branco fora dos textos nem deixavam as mãos livres para uso da pena ou outro instrumento.A encadernação era de madeira ou pele, sem ornamentos.No séc. VdC o formato passa a ser mais quadrado, com textos escritos em duas colunas e margens menores.Textos escolares ou rascunhos em geral eram feitos em papiro, enquanto o pergaminho era preferido para textos do clássico grego, agradável a um público mais conservador, apegado à cultura dos rolos.
No oriente, em Constantinopla, não havia uma aristocracia tão desenvolvida como em Roma, a classe média baixa era mais forte, menos apegada à cultura dos rolos e mais aberta à entrada dos códices, em especial de papiro.Os formatos são diferentes, em geral mais alargados, mas também com margens grandes.Por serem na maioria originais usados como matriz para outras cópias, e por ser o papiro de menor resistência ao manuseio e mais vulnerável às condições climáticas, esses códices eram rapidamente descartados.
.A partir do Sec IV dC , com a igreja já institucionalizada,os códices tendem a melhorar de qualidade, pois passam a representar uma entidade organizada oficialmente. Agora será mais comum encontrar códices com textos de melhor qualidade e padronizados escritos sobre pergaminho. A chegada do cristianismo às camadas mais favorecidas trará mudanças significativas aos códices, que deixam de ser copias feitas por membros da comunidade, passando a ser produzidos nos ateliês onde se misturam às cópias de textos literários e profanos.Desta mistura sairão as iluminuras,antes usadas para ilustração de livros de matemática e geometria,em textos sacros.O formato predominante será então o quadrado voltando depois a ser retangular, com predominância da altura duas vezes maior que a largura e com diagramação em duas colunas. A adesão das camadas mais abastadas ao cristianismo fará com que os códices passem a ser vistos também como objeto de decoração,obra de arte, com encadernações de luxo, revestimento em pedras preciosas e textos com letras ornadas em ouro e prata.Como nos diz Guglielmo,de difusor da palavra de Deus à ostentação,ao qual se opõem São João Crisóstomo e São Jerônimo.
A escrita uncial, mais arredondada, utilizada nos textos bíblicos em latim, foi adotada pela igreja para padronizar um estilo que ao mesmo tempo a identificasse e fosse de fácil leitura.Na realidade, a uncial foi criada, posto que não era conhecida no latim ,embora tenha sua origem na maiúscula grega .O público se diversifica, as publicações passam a ser dirigidas para os eclesiásticos e muitas cópias passarão a ser feitas nos próprios mosteiros, substituindo o trabalho dos ateliês. A leitura passa a ser diária, com fins meditativos.Surgem também os livros de bolso, miniaturas com salmos, muito usados como amuleto, em especial pelas mulheres e viajantes .

Todas essas passagens de um momento a outro do livro, são ilustradas com referência a textos, comparações de obras de diversos autores, tipos de textos – sacros, literários, jurídico.Um livro rico em informações e muitíssimo agradável de se ler, embora muitas vezes tenhamos que nos certificar de que se trata realmente da antiguidade, tal a proximidade dos problemas.E muito nos espanta quando Guglielmo diz haver indícios de que uma tiragem de 1.000 exemplares, manuscritos, não era fato incomum para a época. 


Título:Libros,editores y publico en el mundo antiguo
Autor:Guglielmo Cavallo (org.)
Editora:Alianza universidad


gatos ilutrados



Francesca Dafne Vignaga é o nome desta ilustradora italiana, sensacional quando coloca os amados gatos em situações do nosso cotidiano, ou vivendo episódios triviais do dia-a-dia que nos pertence, como se fossem donos legítimos deles. Só quem compartilha a vida com gatos sabe como e quão bom é!




Sua paixão, em primeiro lugar, é ilustrar para crianças - mas, nós adultos nos agradamos com seus traços leves, sua escolha de tons suaves e coloridos, contendo uma certa nostalgia de quando o mundo era assim, simples: acordar, sentir o mundo girar, caminhar as horas, viver o dia, quem sabe algumas aventuras, e terminar com o sol se pondo na janela do lar-doce-lar...






De fato, para quem ama gatos e convive com eles, é muito fácil fazer uma lista grande de momentos em que dividem sua elegância, vivacidade e amabilidade conosco. Os desenhos de Dafne são a tradução destes segundos de sentimentos e sensações.

Qual gateiro convicto não se vê nesta cena, seja com 1 ou 20 felinos ronronantes?




Por vezes, a gataiada da artista mostra o quê os gatos sabem nos fazer com maestria, usando da mais pura compaixão do planeta: companhia! Recebem um afago, ou nos presenteiam com algum, deixando nosso coração mais leve.







Existe o traço cômico dos gatos, dentro dos traços de Francesca. Ela parece entender bem como os gatos sabem fazer rir! 









Vemos também em sua Arte, o ímpeto curioso e aventureiro dos gatos domésticos, que quase sempre os colocam, em situações embaraçosas, ou inusitadas...







No ano passado, Francesca publicou mais um livro cativante que lhe serve como galeria de artes, e fala de um músico chamado Romeo Mozartin e sua fixação em fazer música onde quer que esteja! E onde quer que ele está, quem estaria junto? Claro, seus gatos inseparáveis pelas árvores, pelos telhados, pelos cômodos, pelos cantos todos!








Nise da Silveira escreve a Spinoza




Carta para todo mundo: leituras de escritos íntimos
por: Marcos Antônio de Moraes 
21/10/2014













Imaginação. Estamos em 1989. Entremos silenciosamente nesta sala de apartamento da rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, Rio de Janeiro. Quietos: olhem para aquela mulher, cabelos branquíssimos, mãos frágeis, dedos longos maltratados pela artrose. Tem 85 anos. Por todos os lados, reparem, livros, revistas, papéis… Gatos espiam, docemente desconfiados. Óculos de lentes grossas, a velha senhora, de sua mesa de trabalho, observa as milhares de lombadas de obras de sua biblioteca. Está presa em uma cadeira de rodas há cinco anos. Movimenta-se com dificuldade, mas o pensamento encontra-se desde sempre liberto, voa sem medo, mergulhada em si própria e, ao mesmo tempo, atenta à realidade. Como num filme, imagens rapidíssimas, situações, gestos, lutas se concentram: a infância em Maceió, ao lado do pai, aprendendo geometria; a menina de 15 anos, na Bahia, única estudante de medicina, entre tantos rapazes; depois, o difícil início de vida profissional no Rio de Janeiro; hábitos humildes no bairro de Santa Teresa, vizinha do poeta Manuel Bandeira; os namoros com o comunismo; a escolha profissional no campo da neurologia; a prisão, em 1936, denunciada por suas leituras marxistas. A memória avança ainda mais rapidamente; a liberdade, a estratégica fuga para o nordeste; seis anos depois, novos tempos, o retorno ao Rio. Vida profissional. Novas ideias para o tratamento mais humano dos doentes mentais do Centro Psiquiátrico Pedro II; a arte e os animais no processo terapêutico; as “mandalas’ dos “clientes” (nunca “pacientes”!), uma carta para Jung. O inconsciente e mitologias; mergulhos sem medo. Tempo, tempo. O grupo de estudos por ela coordenado, devotando-se a leituras da obra do psicoterapeuta suíço; o Museu de Imagens do Inconsciente; a Casa das Palmeiras… A velha senhora movimenta a cabeça, fixando o olhar nos livros. Vai enumerando leituras prediletas: Jung, claro!, Machado de Assis, Antonin Artaud, Shakespeare, Dostoievski, Proust… A visão detém-se-se nos livros de Spinoza, o filósofo holandês do século XVII; sobre a mesa, sempre, ali, muito manuseado, a Ética. Num gesto entusiasmado, agarra a caneta, recupera da gaveta um maço de anotações de leitura, e começa a escrever, sorriso infantil nos lábios, transmitindo vigorosa iluminação. Vamos nos aproximando dela, já é possível ler algo. A caligrafia da doutora Nise da Silveira avança… É uma carta! No cabeçalho: “Meu caro Spinoza”…

Namoros com a literatura. A psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) atribuiu grande importância à literatura, percebendo nela fonte de conhecimentos, inclusive, científicos. Em entrevista a Lúcia Leão, em 1977, dizia ter chegado a formular um conceito mais complexo da esquizofrenia, por meio de concepções do dramaturgo francês Artaud. Acrescenta: “E pela literatura eu tenho [...] encontrado percepções finíssimas sobre a psique humana. O que aprendi com Dostoievski, com Machado de Assis, não tem medida.” (p.135). O biógrafo Bernardo Horta também traz à tona o rompante da psiquiatra, em face dos jargões papagueados por jovens estudantes de medicina: “Rasguem os manuais de psiquiatria! Leiam Machado de Assis. Seria mais proveitoso trocar certos tratados de psiquiatria pelos livros deste que é o maior escritor brasileiro de todos os tempos, meu primeiro grande mestre de psicologia. Suas obras analisam com mais profundidade a alma humana.” (p. 98). Nas Cartas a Spinoza, escrevendo sobre (e para) um filósofo falecido em 1677, ela também empresta da literatura os voos da imaginação criadora.

Processo de criação. A correspondência que Nise da Silveira trocou com o poeta Marco Lucchesi deixa entrever alguns momentos do processo de criação das Cartas a Spinoza. Em junho de 1989, comunicava ao jovem amigo: “Junto mando-lhe um rascunho [da primeira carta]. Gostaria de discuti-lo com você tranquilamente, se não o julgar demasiado louco. O mesmo veículo que me levou a Rijinsburg me levará a Pisa. Já estou estudando o mapa.” (p.19). Em outubro, menciona novamente o trabalho que, então, parecia chegar a termo: “Caminharei agora para a VII e última. O tema será a morte. Cabeça fria!” (p.23). O que pode parecer “louco” é o “veículo” escolhido para a concretização de um texto ensaístico (enraizado em leituras no terreno filosófico e dos estudos de psicologia), ou seja, a imaginação, em sua plenitude, liberta de amarras temporais, carregando o diálogo epistolar para as águas da efabulação. Sob ponto de vista do “assunto” das cartas, Nise, responde a Ferreira Gullar, em 1991, quando este lhe indaga o motivo do grande interesse pela obra de Spinoza. De forma sintética, mostra a intenção de valorizar no pensamento do filósofo o sentido da “intuição da totalidade” (p. 33).

Espelhos. Nas cartas imaginárias, Nise busca definir uma caracterização moral do filósofo, passando pela biografia dele. Na primeira carta, mostra Spinoza transgressor, “ainda muito jovem”, recusando “os rígidos ensinamentos” dos mestres de sua religião, sendo por isso expulso da comunidade “como um maldito”. Essa personalidade questionadora desdobra-se, nas missivas, na figuração de Jung: “Embora nem sempre ele estivesse de acordo com suas posições, caro Spinoza, Jung era um homem que, como você, navegava na contracorrente do seu tempo.” A aproximação dessas personalidades da cultura que avançam no terreno do conhecimento humano porque rejeitam posturas estagnadas acaba, de algum modo, também conformando a autorrepresentação da própria Nise, “rebelde”, na contracorrente de pensamentos viciados no campo da medicina psiquiátrica.

Autobiografia enviesada. Nise da Silveira mostrava-se avessa ao desvelamento de sua intimidade. Em 1993, irá dizer a Márcia Guimarães: “minha vida tem sido o meu trabalho, e o meu trabalho tem sido a minha vida” (p.186). Exprime, contudo, na primeira carta a Spinoza os sofrimentos e contradições da jovem Nise, registrando o encontro com a obra de Spinoza: “[Por volta de 1920] seu Livro maior – a Ética – chegou às minhas mãos, numa pequena cidade do nordeste do Brasil, chamada Maceió. Parece incrível. Eu estava vivendo um período de muito sofrimento e contradições. Logo às primeiras páginas, fui atingida. As dez mil coisas que me inquietavam dissiparam-se quase, enfraquecendo-se a importância que eu lhes atribuía. Outros valores impunham-se agora. Continuei sofrendo, mas de uma maneira diferente.” Nas Cartas a Spinoza, Narciso talvez preferisse se ver refletido na figura do filósofo que tanto a magnetizava, fundindo-se a ele.



Partilha. O leitor das Cartas a Spinoza encontra nas avaliações críticas de Nise da Silveira um instigante guia para a compreensão das linhas mestras do pensamento do filósofo, de seu modo de refletir sobre a “visão unitária do universo”, a sua particular concepção de ética “que não visa ditar regras de conduta”, o seu mergulho na “essência da natureza humana” e muito mais. Primeiro, segue-se de perto o modo como ela lê e relê os livros de Spinoza, detectando impasses, sentidos herméticos, acusando compreensivamente as sombras que aqui e ali surgem na figura do mestre. Afinal, por que o filósofo, advogando uma concepção “unitária do mundo”, não teria valorizado a vivência interna dos “bichos”? Estudiosa, Nise, percorre também outras obras, de interpretação, que ajudam a iluminar trechos de sua explanação. Como bem ensinou Will Durant, em sua História da filosofia: “o livro Ética, [...] não é para ser lido, mas para ser estudado. [...] Não se pense em chegar ao cerne passando rapidamente por ele, nunca, em trabalho de filosofia, houve tão pouca coisa que pudesse ser saltada sem prejuízo. [...] Leia o livro, não todo de uma vez, mas em pequenas porções em muitas sessões. E ao terminá-lo, pense que apenas começou a compreendê-lo. [...] Quando o tiver terminado uma segunda vez, ficará para sempre um apaixonado pela filosofia.” Spinoza, nas Cartas de Nise, vale em sua figuração radical, em suas formulações geométricas irrepreensíveis; vale igualmente pelas conexões que a sua obra favorece, na leitura abrangente e empenhada da psiquiatra brasileira. Assim, a “totalidade” prevista no pensamento do filósofo antecipa, de algum modo, o sentido da psique humana, na percepção de Jung. Vincula-se à cosmovisão budista do mundo; dialoga com a Einstein e a física moderna. Vilegiaturas do conhecimento. E não é por isso mesmo, pela fulgurante dimensão intelectual, humanística e estética do texto, que tanta gente se sente atraída pelas Cartas a Spinoza?

Fonte: revista Pessoa

Doutora Nise da Silveira escreve a Baruch Spinoza


Carta pra todo mundo: leitura de escritos íntimos
Escrito por Marcos Antonio de Moraes em 21 de outubro de 2014

Imaginação. Estamos em 1989. Entremos silenciosamente nesta sala de apartamento da rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, Rio de Janeiro. Quietos: olhem para aquela mulher, cabelos branquíssimos, mãos frágeis, dedos longos maltratados pela artrose. Tem 85 anos. Por todos os lados, reparem, livros, revistas, papéis… Gatos espiam, docemente desconfiados. Óculos de lentes grossas, a velha senhora, de sua mesa de trabalho, observa as milhares de lombadas de obras de sua biblioteca. Está presa em uma cadeira de rodas há cinco anos. Movimenta-se com dificuldade, mas o pensamento encontra-se desde sempre liberto, voa sem medo, mergulhada em si própria e, ao mesmo tempo, atenta à realidade. Como num filme, imagens rapidíssimas, situações, gestos, lutas se concentram: a infância em Maceió, ao lado do pai, aprendendo geometria; a menina de 15 anos, na Bahia, única estudante de medicina, entre tantos rapazes; depois, o difícil início de vida profissional no Rio de Janeiro; hábitos humildes no bairro de Santa Teresa, vizinha do poeta Manuel Bandeira; os namoros com o comunismo; a escolha profissional no campo da neurologia; a prisão, em 1936, denunciada por suas leituras marxistas. A memória avança ainda mais rapidamente; a liberdade, a estratégica fuga para o nordeste; seis anos depois, novos tempos, o retorno ao Rio. Vida profissional. Novas ideias para o tratamento mais humano dos doentes mentais do Centro Psiquiátrico Pedro II; a arte e os animais no processo terapêutico; as “mandalas’ dos “clientes” (nunca “pacientes”!), uma carta para Jung. O inconsciente e mitologias; mergulhos sem medo. Tempo, tempo. O grupo de estudos por ela coordenado, devotando-se a leituras da obra do psicoterapeuta suíço; o Museu de Imagens do Inconsciente; a Casa das Palmeiras… A velha senhora movimenta a cabeça, fixando o olhar nos livros. Vai enumerando leituras prediletas: Jung, claro!, Machado de Assis, Antonin Artaud, Shakespeare, Dostoievski, Proust… A visão detém-se-se nos livros de Spinoza, o filósofo holandês do século XVII; sobre a mesa, sempre, ali, muito manuseado, a Ética. Num gesto entusiasmado, agarra a caneta, recupera da gaveta um maço de anotações de leitura, e começa a escrever, sorriso infantil nos lábios, transmitindo vigorosa iluminação. Vamos nos aproximando dela, já é possível ler algo. A caligrafia da doutora Nise da Silveira avança… É uma carta! No cabeçalho: “Meu caro Spinoza”…

Namoros com a literatura. A psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) atribuiu grande importância à literatura, percebendo nela fonte de conhecimentos, inclusive, científicos. Em entrevista a Lúcia Leão, em 1977, dizia ter chegado a formular um conceito mais complexo da esquizofrenia, por meio de concepções do dramaturgo francês Artaud. Acrescenta: “E pela literatura eu tenho [...] encontrado percepções finíssimas sobre a psique humana. O que aprendi com Dostoievski, com Machado de Assis, não tem medida.” (p.135). O biógrafo Bernardo Horta também traz à tona o rompante da psiquiatra, em face dos jargões papagueados por jovens estudantes de medicina: “Rasguem os manuais de psiquiatria! Leiam Machado de Assis. Seria mais proveitoso trocar certos tratados de psiquiatria pelos livros deste que é o maior escritor brasileiro de todos os tempos, meu primeiro grande mestre de psicologia. Suas obras analisam com mais profundidade a alma humana.” (p. 98). Nas Cartas a Spinoza, escrevendo sobre (e para) um filósofo falecido em 1677, ela também empresta da literatura os voos da imaginação criadora.

Processo de criação. A correspondência que Nise da Silveira trocou com o poeta Marco Lucchesi deixa entrever alguns momentos do processo de criação das Cartas a Spinoza. Em junho de 1989, comunicava ao jovem amigo: “Junto mando-lhe um rascunho [da primeira carta]. Gostaria de discuti-lo com você tranquilamente, se não o julgar demasiado louco. O mesmo veículo que me levou a Rijinsburg me levará a Pisa. Já estou estudando o mapa.” (p.19). Em outubro, menciona novamente o trabalho que, então, parecia chegar a termo: “Caminharei agora para a VII e última. O tema será a morte. Cabeça fria!” (p.23). O que pode parecer “louco” é o “veículo” escolhido para a concretização de um texto ensaístico (enraizado em leituras no terreno filosófico e dos estudos de psicologia), ou seja, a imaginação, em sua plenitude, liberta de amarras temporais, carregando o diálogo epistolar para as águas da efabulação. Sob ponto de vista do “assunto” das cartas, Nise, responde a Ferreira Gullar, em 1991, quando este lhe indaga o motivo do grande interesse pela obra de Spinoza. De forma sintética, mostra a intenção de valorizar no pensamento do filósofo o sentido da “intuição da totalidade” (p. 33).

Espelhos. Nas cartas imaginárias, Nise busca definir uma caracterização moral do filósofo, passando pela biografia dele. Na primeira carta, mostra Spinoza transgressor, “ainda muito jovem”, recusando “os rígidos ensinamentos” dos mestres de sua religião, sendo por isso expulso da comunidade “como um maldito”. Essa personalidade questionadora desdobra-se, nas missivas, na figuração de Jung: “Embora nem sempre ele estivesse de acordo com suas posições, caro Spinoza, Jung era um homem que, como você, navegava na contracorrente do seu tempo.” A aproximação dessas personalidades da cultura que avançam no terreno do conhecimento humano porque rejeitam posturas estagnadas acaba, de algum modo, também conformando a autorrepresentação da própria Nise, “rebelde”, na contracorrente de pensamentos viciados no campo da medicina psiquiátrica.

Autobiografia enviesada. Nise da Silveira mostrava-se avessa ao desvelamento de sua intimidade. Em 1993, irá dizer a Márcia Guimarães: “minha vida tem sido o meu trabalho, e o meu trabalho tem sido a minha vida” (p.186). Exprime, contudo, na primeira carta a Spinoza os sofrimentos e contradições da jovem Nise, registrando o encontro com a obra de Spinoza: “[Por volta de 1920] seu Livro maior – a Ética – chegou às minhas mãos, numa pequena cidade do nordeste do Brasil, chamada Maceió. Parece incrível. Eu estava vivendo um período de muito sofrimento e contradições. Logo às primeiras páginas, fui atingida. As dez mil coisas que me inquietavam dissiparam-se quase, enfraquecendo-se a importância que eu lhes atribuía. Outros valores impunham-se agora. Continuei sofrendo, mas de uma maneira diferente.” Nas Cartas a Spinoza, Narciso talvez preferisse se ver refletido na figura do filósofo que tanto a magnetizava, fundindo-se a ele.

Partilha. O leitor das Cartas a Spinoza encontra nas avaliações críticas de Nise da Silveira um instigante guia para a compreensão das linhas mestras do pensamento do filósofo, de seu modo de refletir sobre a “visão unitária do universo”, a sua particular concepção de ética “que não visa ditar regras de conduta”, o seu mergulho na “essência da natureza humana” e muito mais. Primeiro, segue-se de perto o modo como ela lê e relê os livros de Spinoza, detectando impasses, sentidos herméticos, acusando compreensivamente as sombras que aqui e ali surgem na figura do mestre. Afinal, por que o filósofo, advogando uma concepção “unitária do mundo”, não teria valorizado a vivência interna dos “bichos”? Estudiosa, Nise, percorre também outras obras, de interpretação, que ajudam a iluminar trechos de sua explanação. Como bem ensinou Will Durant, em sua História da filosofia: “o livro Ética, [...] não é para ser lido, mas para ser estudado. [...] Não se pense em chegar ao cerne passando rapidamente por ele, nunca, em trabalho de filosofia, houve tão pouca coisa que pudesse ser saltada sem prejuízo. [...] Leia o livro, não todo de uma vez, mas em pequenas porções em muitas sessões. E ao terminá-lo, pense que apenas começou a compreendê-lo. [...] Quando o tiver terminado uma segunda vez, ficará para sempre um apaixonado pela filosofia.” Spinoza, nas Cartas de Nise, vale em sua figuração radical, em suas formulações geométricas irrepreensíveis; vale igualmente pelas conexões que a sua obra favorece, na leitura abrangente e empenhada da psiquiatra brasileira. Assim, a “totalidade” prevista no pensamento do filósofo antecipa, de algum modo, o sentido da psique humana, na percepção de Jung. Vincula-se à cosmovisão budista do mundo; dialoga com a Einstein e a física moderna. Vilegiaturas do conhecimento. E não é por isso mesmo, pela fulgurante dimensão intelectual, humanística e estética do texto, que tanta gente se sente atraída pelas Cartas a Spinoza?


Posta restante. BEZERRA, Elvia. A trinca do Curvelo: Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. GULLAR, Ferreira. Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996. HORTA, Bernardo Carneiro.Nise: arqueóloga dos mares. 2.ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. LUCCHESI, Marco. Viagem a Florença: cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Rocco, 2003. SILVEIRA, Nise. Nise da Silveira [Entrevistas] (organização Luiz Carlos Mello). Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009. SILVEIRA, Nise da. Cartas a Spinoza. 2.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1999 [1. ed. 1990]. Apresento aqui trechos de comunicação inédita que proferi no IV Encontro de Arte & Saúde Mental, no Rio de Janeiro, em 2010.

Marcos Antonio de Moraes

Marcos Antonio de Moraes
Marcos Antonio de Moraes é graduado em Letras; mestre e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Docente e pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Membro da Equipe Mário de Andrade no IEB-USP. Desenvolve pesquisas interdisciplinares, focalizando as relações entre literatura brasileira e memorialismo (correspondência de escritores). Recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro na categoria Teoria/Crítica Literária, pela obra Câmara Cascudo e Mário de Andrade – cartas 1924-1944 (Global, 2010). Recebeu o prêmio Jabuti na categoria Ensaio e Biografia com o livro Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira (Edusp/IEB, 2000).

O POETA E O FILÓSOFO Uma Lição para Tempos Difíceis

ANTONIO BRASILEIRO
O poeta
Poucos homens gonzam do privilégio de manter um bom número de amigos entre si. A vida moderna, calcada na pressa, está longe de se harmonizar com a belíssima arte de ser amigo. Pois ser amigo é fazer silêncio; na verdade, tudo que é penetrado de beleza nasce do silêncio.
   Um dos homens a gozar desse privilégio foi o filósofo grego Epicuro. Ele dizia: "De todas as coisas que nosso ferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição de amizade."
Esse homem, Epicuro, não foi um pensador original como o foram tantos de seus antecessores; suas idéias fundamentais foram inspiradas em Demócrito. Contudo chegou a ter prestígio e a influenciar pessoas, e seu nome ainda hoje é lembrado,embora,na maioria dos casos, sob a forma deturpada de um grosseiro sensualismo. À época em que Epicuro viveu - fim do século IV e início do século III, a.C. - já não existia aquele fulgor intelectual que deu fama à antiga Grécia: Ésquilo, Heráclito, Fídias, Sócrates, Demócrito,Platão, todos eles já estavam mortos. A juventude de Epicuro coincidiu com o fim da vida de Aristóteles; sua época foi, portanto, a da transição o irreversível declínio da cultura grega. As épocas típicas de declínio, onde o tônus positivo e otimista não consegue mais se sustentar, forjam no homem um filosofia acomodatícia, resignada. O objetivo do conhecimento deixa de ser a busca da verdade, da grande verdade;o que o homem procura é apenas sua verdade particular, a felicidade. A filosofia só tem valor se libertar as paixões da alma, diz Epicuro, reconhecendo embora que o próprio filosofar auxilia essa libertação, dissolvendo "todo desejo incômodo e inquieto". Daí a sua distinção entre uma falsa, ilusória filosofia, e uma filosofia verdadeira, apaziguadora de instintos.
O ideal do sábio é estar tranquilo. Nisso também concordava com a "plenitude comedida" de seu mestre Demócrito. Este dizia:"Aquele que quiser viver em tranquilidade, não deve se agitar demasiado".     Dizia Epicuro: ''O essencial para a nossa felicidade é a nossa condição íntima". e completava: "E desta somos nós os amos". Era um homem cheio de ternura. Todo aquele que se aproximavamde sua casa - do seu jardim, como dizia mais frequentemente - era de   imediato arrastado por seus sábios conselhos. Decerto que muito do que se sabe sobre ele está envolto naquela amável adulteração dos seus mais queridos discípulos e dos seus posteriores adeptos de sua escola de pensamento e de vida. Mas algumas coisas podem ser tidascomo verídicas, tais como sua bondade e delicadeza,suar esistência aos sofrimentos, sua frugalidade e pobreza. "A quem não basta pouco nada basta" - dizia.


O FILÓSOFO

A natureza é como um imenso ser; espantosa é a semelhança que guarda o todo com suas partes. A realidade última do universo pode caber, inteira, no grão de areia.O um e o múltiplo se tocam. Nenhum desses conceitos, por certo, é original. Muitos homens, em muitos lugares, os formularam. Na verdade são sempre poucos os que compreendem alguma coisa, seja o que for. De modo que, desde cedo, a posse do conhecimento forçou uma radical divisão da humanidade. Diríamos mesmo: das humanidades. A posse do conhecimento verdadeiro é, sem dúvida, a única forma justa de estratificação - não a estratificação no sentido social, mas no sentido mesmo de ser humano.Dentre as descobertas consideradas básicas, a identidade do Um com o Todo é a que mais constantemente tem acompnhado o homem. Foi talvez no oriente,onde por primeiro aflorou tal descoberta. E foram o poetas orientais aqueles que bem mais tarde, melhor a formularam em palavras. Alguns conseguiram ser espantosamente objetivos, como Sôsan, que disse: "O Um é o Todo é o Todo é o Um. Se isso foi bem compreendido, não precisas mais te lamentares de que não és perfeito". Yôka Daishi, já ciente da unidade de todas as coisas, dizia: Conheces tu aquele sábio que ultrapassou o aprender e não se aplica a coisa nenhuma? "Esse estado de suprema sapiência guarda, por certo, embora sem a menor sombra de arrogância, a consciência do próprio valore de ser distinto do rebanho.
   É o mesmo Yôca Daishi quem, sutilmente, diz: "Não há árvore de inferior qualidadeno bosque dos Sândalos." Explicar um poema - ou versos de um poema - é não entender o poema. A verdadeira compreensão da poesia assemelha-se à verdadeira compreensão:ou se compreende ou não se compreende. Não há intermediários. Explicações intermediárias dão a conhecer apenas as próprias explicações intermediárias;o poema em si permanece inabordado. É confundir o dedo que aponta com oobjetoapontado, diria Yôka Daishi.Yôka Daishi viveu na China. Era um dos discípulos favoritos do Sexto Patriarca da seita Zen, chamado Yeno ou Hui-Neng (638-713). Seu Poema da Iluminação é uma dessas obras que se pode realmente considerar como algo superior. Grande parte de sua beleza se perde, naturalmente, ao ser traduzido, mas mesmo o que se pode colher numa tradução em língua ocidental ainda tem força para fazer vibrar profundamente dentro de nós. Alguns de seus versos, prenhes daquele sadio orgulho dos iluminados, nos fazem lembrar o cognominado "Obscuro", que viveu na Grécia treze séculos antes dele: Heráclito. Como se pode perceber nos escritos de Heráclito, depreende-se igualmente dos versos de Yôka Daishi que, de certa forma, a ignorância de seus contemporâeos o magoava. Constata-se isso com bastante frequência nesse seu Poema da Iluminação: "Hini, a erva que cresce no Himalaia, não se mistura com outras plantas". - E também: "O iluminado vai sempre só, anda sempre só".O tom geral do poema é, entretanto, é daqueles que tocaram o âmago das coisas e atingiram a perfeição maior. É o tom de quem pôde afirmar: "As coisas são impermanentes e tudo é vazio". Ou: "Quer falando, quer ficando em silêncio, que permanecendo quieto, a Essência está sempre em repouso". De Yôka Daishi é este verso tão cheio de lirismo, tão profundamente simples e cheio de lirismo: "Uma só lua se reflete em todas as águas."


Antonio Brasileiro é poeta, ficcionista, autor de diversos

Resenha: A Arte de Amar - Erich Fromm

Texto: Ben Oliveira

Escrito em 1956, pelo psicanalista alemão, filósofo e sociólogoErich FrommA arte de Amar (The Art of Loving) aborda um dos temas que sempre despertou interesse nas pessoas, o amor. O livro não é um guia, como muitos podem imaginar pelo nome, muito menos auto-ajuda, apesar de proporcionar o auto-conhecimento. O psicanalista considera o amor uma arte, pois acredita na importância de conhecer sua teoria e prática.

Como toda arte, Erich Fromm argumenta que o amor precisa ser trabalhado, exigindo prática e concentração, além de maturidade, desenvolvimento de personalidade, capacidade de amar ao próximo, humildade, coragem, fé e disciplina. Diferente do que se acredita, o psicanalista ressalta que o amor não é obra do acaso, sorte ou uma simples sensação agradável.

“O amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana”, comenta Erich Fromm. Segundo o autor, existem diferentes tipos de amor, como o amor romântico, o amor fraternal, amor de pais, amor erótico, amor próprio e amor de Deus, e todos eles ajudam de alguma forma o ser humano a lidar com a separação e solidão.

Fromm também analisa o amor nos tempos atuais, comparando-o à necessidade de consumo e busca pelo atraente física ou mentalmente – fator que muda de acordo com a moda da época. De acordo com o psicanalista, o que existe é uma relação de troca, na qual duas se pessoas se apaixonam ao sentirem que encontraram o que estava de melhor disponível no mercado. Logo, o amor segue o mesmo padrão dos mercados de utilidade e de trabalho.

O autor fala sobre a diferença entre paixão (cair em amor) e amor (permanecer amando). No primeiro caso, as pessoas se tornam íntimas e a partir do momento em que se conhecem melhor, acontece a morte da excitação inicial. “Dificilmente haverá qualquer atividade e que, contudo, fracasse com tanta regularidade, quanto o amor”, analisa Erich Fromm.

Como o homem não consegue desistir do amor, o psicanalista recomenda que o mesmo passe a entendê-lo e descobrir as razões que levaram ao fim.

Erich Fromm comenta sobre a necessidade do homem de realizar a união com outras pessoas, como uma tentativa de fugir da loucura (pânico do isolamento), transcender a própria vida individual e encontrar sintonia.

O psicanalista comenta diversas maneiras paliativas de fugir dessa separação, como os estados orgíacos (estado transitório de exaltação, na qual o mundo externo desaparece – drogas, transe, orgasmo sexual), união com grupos (obtendo a sensação de pertencer e se salvar da solidão), as rotinas e atividades pré-fabricadas e a atividade criadora (o homem cria algo representando o mundo exterior). Todavia, Erich Fromm explica que o amor ainda é a resposta completa para o problema da existência.

“Sem amor, a humanidade não poderia existir um dia”, justifica Erich Fromm. Para o psicanalista, o  homem precisa se conectar com outras pessoas e este fracasso pode significar a loucura e destruição de si mesmo e dos outros.

De acordo com Erich Fromm, o amor pode ser visto de duas formas: uma união simbiótica, por exemplo, como a necessidade que um bebê tem da sua mãe, e vice-versa, ou psíquica, onde mesmo estando em corpos independentes, eles estão ligados psicologicamente; e o amor amadurecido, na qual mesmo unidos, as pessoas preservam suas integridades próprias.

“No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um, e, contudo, permaneçam dois”, define Erich Fromm. Para o psicanalista, o amor ainda é visto como uma atividade, e não um afeto passivo.

Existe uma maneira produtiva e uma não-produtiva de enxergar o amor. Segundo Fromm, algumas pessoas veem o amor como um sacrifício, um abandono e se recusam a dá-lo, enquanto outras enxergam como algo que é melhor dar do que receber, uma experiência elevada e que sua ausência seria dolorosa.

Psicologicamente, Fromm acredita que quem tem medo de perder alguma coisa é pobre; e quem é capaz de dar de si é rico. As pessoas dão vida sem se sacrificarem, alegria, interesse, compreensão, conhecimento, humor e até mesmo tristeza. “Dar implica fazer da outra pessoa também um doador e ambos compartilhar da alegria de haver trazido algo à vida”, ensina.

Cuidado e responsabilidade são necessários para que o relacionamento amoroso dê certo. Se preocupar com o outro, não tratá-lo como objeto e saber deixá-lo livre são alguns dos pontos levantados.

Os diferentes tipos de amor são abordados, como o amor de mãe (passivo, incondicional); amor paterno (condicional, deve ser merecido); amor fraterno (entre iguais); amor erótico (anseio de fusão completa, união com outra pessoa); amor próprio (diferente do egoísmo) e o amor de Deus.

Para o relacionamento amoroso funcionar, Fromm fala que o amor erótico deve vir acompanhado do amor fraterno, caso contrário será algo transitório. Ainda segundo o psicanalista, mesmo que haja uma união, ela é ilusória.

O homem moderno também é um dos motivos pelos quais é tão difícil encontrar o amor nos dias de hoje, pois, para Fromm, ele é “alienado de si mesmo, de seus semelhantes e da natureza”. As pessoas tentam ser próximas, mas no fundo são inseguras, ansiosas e se culpam por não conseguirem. “Ele vive no passado ou no futuro, mas não no presente”, Erich Fromm caracteriza o homem moderno.

Com o sistema capitalista, segundo o psicanalista, o amor é cada vez mais exceção, e, portanto, é preciso fazer algo para mudar isto. “O amor só é possível se duas pessoas se comunicam mutuamente a partir do centro de suas existências e, portanto, se cada uma o experimenta a partir do centro de sua própria experiência”, argumenta.

Até o amor de Deus foi transformado nos dias atuais. Para Erich Fromm, Deus é visto como um “parceiro de negócios”, um meio para aumentar a capacidade de obter sucesso.

Para finalizar este texto, acredito na importância de livros, como a Arte de Amar, para o entendimento de si mesmo e do outro, já que ambos os fatores estão relacionados. E segundo Erich Fromm, é ilusão imaginar que o amor não existe conflitos – ele é um desafio constante, porém possibilita crescer e o trabalho em equipe. “Amar é uma experiência pessoal que cada qual só pode ter por si e para si”, com esta frase do Erich Fromm, concluo com o pensamento do psicanalista de que para amar o outro é preciso antes amar a si mesmo e vice-versa.